A Prefeitura de Natal realizou, na manhã de terça-feira (25), uma operação para desmobilizar a ocupação irregular no canteiro central da Avenida das Alagoas, no bairro Neópolis. A ação, conduzida por equipes da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SEMSUR) e pela Guarda Municipal, incluiu a retirada de estruturas, recolhimento de objetos e limpeza da área, conforme nota oficial do Executivo municipal.
Segundo a Prefeitura, a ocupação gerava riscos à segurança, problemas de ordem pública, acúmulo de lixo e possibilidades de acidentes. A administração afirma ainda que as remoções ocorreram “de forma tranquila, sem registro de incidentes”, e que a operação foi embasada em levantamento social prévio, segundo o qual os ocupantes “possuem residências, são assistidos por programas sociais e estavam no local apenas para receber doações de alimentos, brinquedos e vestuário”.
Durante a ação, agentes da Guarda Municipal permaneceram no entorno da via e realizaram rondas enquanto equipes da SEMSUR recolhiam materiais em um caminhão. Duas profissionais da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (SEMTAS) também estiveram no local realizando abordagem social ativa, embora tenham informado que não estavam autorizadas a comentar detalhes sobre as medidas adotadas pela Prefeitura ou eventuais encaminhamentos para as famílias presentes.
Apesar da versão oficial, famílias que estavam acampadas no canteiro relataram que a ação ocorreu com agressividade, intimidação e destruição de pertences, incluindo barracas e instrumentos de trabalho. As pessoas que ocupavam o canteiro afirmam que agentes da Guarda Municipal pernoitaram na área na véspera da operação, aumentando o clima de tensão. Segundo os relatos, objetos pessoais e estruturas improvisadas foram danificados ou recolhidos sem aviso adequado.
Fernanda da Silva, catadora, estava no local com o marido e o filho. Ela conta que sua barraca foi destruída durante a intervenção:
“Eles destruíram tudo, rasgaram minha barraca que eu comprei com o maior sacrifício vendendo latinha”. Fernanda relata que, por volta das 6h da manhã, ela foi acordada pelos agentes e informada de que deveria desocupar o local. Ao tentar recolher seus pertences, afirma que os agentes não aguardaram:
“Eu falei ‘pera aí, não mexa não, que eu vou já aí’, porque eu tava aperreada tirando tudo com meu marido, mas eles não esperaram, foram colocando a mão em tudo”, diz. Ela acrescenta que não tem para onde ir após a retirada.
Ivaneide de Oliveira, há cerca de 20 dias no local, relata que objetos utilizados para trabalho também foram levados: “Eles estão nos expulsando, roubaram os pneus da minha carroça e querem levar ela à força. Como que eu vou comer meu pão de cada dia se levaram meus pneus?”. Ivaneide explica que a família trabalha com reciclagem e que permanecia no local “porque precisa, não porque quer”.
Segundo ela, no início, a orientação dada pela Prefeitura foi para que apenas as barracas fossem desmontadas, mas o pedido evoluiu para a desocupação total: “Eles disseram assim ‘pode ficar, mas sem barraco’, nós tiramos. Agora querem levar também o que é da gente, jogar nossas coisas no mato. A gente já não tem quase nada, o pouco que tem eles tiram. Estão nos humilhando”.
Outro relato é o de Kathya Janine, 25 anos, que está no local com a filha, Maitê, de 5 meses, e o filho Natanael, de 10 anos, em busca de doações. Ela conta que agentes da Guarda Municipal vigiaram o grupo durante toda a noite, aumentando o medo e a insegurança:
“Quase que a gente não dorme aqui, porque eles ficaram vigiando a gente a noite toda. Falaram que se a gente não saísse eles iam pegar a gente, colocar pra fora à força”. Kathya também afirma que ouviu de agentes que o Conselho Tutelar poderia ser acionado para retirar as crianças caso permanecessem no canteiro.
“Eu não tenho pra onde ir. Eu moro em um barraco e lá eu não tenho a mesma assistência que tenho aqui, mesmo estando na rua”, afirma.
Enquanto isso, abordagens sociais conduzidas pela SEMTAS não resultaram em encaminhamento imediato, segundo Kathya. Ela relata que as agentes conversaram, mas não ofereceram alternativas: “Disseram que era pra gente procurar um rumo, não ofereceram nada e nem falaram pra onde deveríamos ir”.
Segundo ela, essa não foi a primeira ação da assistência social no local: “Elas já estiveram aqui antes, perguntaram as mesmas coisas, mas não oferecem e nem sugeriram nada. Não mudou nada da outra vez, não vai mudar agora”.
Levantamento dos perfis
Em nota divulgada à imprensa, a Prefeitura de Natal afirma que a ação foi realizada após acompanhamento social que identificou o perfil das famílias. Segundo o Executivo municipal, todos os ocupantes têm residência fixa e já são atendidos por políticas sociais, estando no local exclusivamente para receber doações no período de fim de ano.
O texto oficial também aponta problemas de segurança, ordem e saúde pública decorrentes da ocupação, como acúmulo de resíduos e risco de acidentes no trânsito. Para a Prefeitura, a remoção das estruturas e dos objetos foi necessária para a restauração da ordem no canteiro central de Neópolis.








