Ananda Miranda
Repórter
Ansiedade, depressão, isolamento social e perda da autoestima estão entre os principais sintomas enfrentados por pessoas surdas que não conseguem acesso a atendimento psicológico em sua própria língua. Mesmo representando cerca de 5% da população brasileira, essa comunidade ainda encontra barreiras quase intransponíveis para receber cuidado adequado em saúde mental. A escassez de profissionais bilíngues, a ausência de intérpretes e a falta de políticas públicas efetivas tornam o acesso ao atendimento psicológico uma realidade distante para boa parte da população surda, aprofundando um cenário de exclusão estrutural que impacta diretamente o bem-estar emocional e social dessas pessoas.
De acordo com a Associação de Surdos de Natal (Asnat), a acessibilidade para surdos em atendimento psicológico no setor público não existe no Rio Grande do Norte. “Não existe acessibilidade em Libras em nenhuma área da saúde pública do RN infelizmente. A saúde mental que precisa de um cuidado especial com psicólogos que tenham conhecimento aprofundado em Libras infelizmente não faz parte da realidade da Comunidade Surda do RN”, disse a instituição.
Conforme a psicóloga especialista em Libras, Flávia Viana, embora muitas vezes sejam classificadas como pessoas com deficiência, surdos têm, antes de tudo, uma diferença linguística. Sua primeira língua é a Libras, e é a partir dessa realidade que começam os entraves, inclusive antes da consulta. “A dificuldade começa já na recepção. Eles não conseguem sequer obter as informações básicas porque ninguém fala sua língua”, explica a especialista. Segundo ela, a escassez de profissionais que dominem Libras impede que a comunidade surda seja realmente contemplada pelos serviços públicos de saúde mental.
A figura do psicólogo bilíngue — profissional proficiente tanto em Libras quanto em português — ainda é rara no Brasil. Sem essa mediação, a comunicação entre paciente e psicólogo é comprometida ou inviável. “O psicólogo não tem como escutar se não entende a língua de sinais, e o surdo, por sua vez, também não domina, necessariamente, a língua oral ou escrita”, destaca Viana.
Ela ressalta, no entanto, que garantir o acesso não é suficiente. É preciso pensar na qualidade, no investimento de profissionais capacitados. “A gente precisa lutar para que haja psicólogos bilíngues, que dominem Libras”, conta a professora.
Há um mito de que todos os surdos fazem leitura labial ou escrevem fluentemente em português. Conforme Viana, a maioria dos surdos ainda estão em processo de aquisição da língua portuguesa como segunda língua, e isso pode se estender até a conclusão do ensino superior, conforme reconhecem os próprios marcos legais brasileiros.
Sem acesso à comunicação em sua língua materna, o direito ao cuidado psicológico acaba sendo negado para grande parte da população surda, escancarando uma exclusão estrutural que vai muito além da falta de vagas ou de recursos no sistema de saúde.
Falta de inclusão
Jenipher Silva, professora substituta do Departamento de Letras da UFRN, é surda e conta que a comunicação para pessoas surdas dificulta o acesso a diversos serviços. “Nós, pessoas surdas, ainda enfrentamos dificuldades para sermos incluídas de fato na sociedade, sendo uma das principais a comunicação, porque poucos sabem Libras, e isso nos afeta em diferentes lugares, como hospitais, bancos, escolas, ambientes de trabalho, entre outros”, admitiu a professora.
De acordo com Silva, a barreira comunicacional faz ela ter a necessidade de um acompanhamento familiar para que seja a ponte entre ela e o profissional da saúde, mas esse acompanhamento não é para todos os surdos: “Nem sempre as pessoas surdas podem contar com o apoio familiar. Portanto, a falta de acessibilidade pode comprometer a qualidade do atendimento nos serviços de saúde”. Para serviços psicológicos não é possível que outra pessoa esteja presente no processo, impossibilitando que o surdo tenha acesso a essa especialidade.
A professora explica que é importante ter profissionais da saúde que saibam Libras e estejam disponíveis para atender os pacientes. “Uma das soluções que considero fundamental é promover o aprendizado da Libras entre os profissionais da saúde. E acredito que a presença de profissionais surdos nesse processo é indispensável”, defendeu.
No Brasil, a acessibilidade na saúde é garantida principalmente pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI), que assegura o acesso a serviços de saúde e informações por meio de tecnologia assistiva e outras formas de comunicação. O Ministério da Saúde reconhece o atendimento psicológico como pilar para a “promoção da saúde integral e qualidade de vida, focando no cuidado humanizado, inclusão social e reabilitação de pessoas em sofrimento psíquico”.
Mais de 10 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de deficiência auditiva, de acordo com dados do IBGE, o que corresponde a cerca de 5% da população. Por outro lado, a disponibilidade de atendimento psicológico não é algo simples de encontrar.” Segundo a psicóloga Débora Araújo, ouvinte que fala em Libras e atende pacientes surdos: “É uma dificuldade a nível nacional, são poucos profissionais. É uma área que ainda está engatinhando, você não encontra com a facilidade que encontraria para uma pessoa ouvinte.”
A Secretaria Municipal de Saúde de Natal (SMS) disse que o serviço de psicologia para surdos não é oferecido pela saúde pública na capital potiguar.
Débora Araújo também destaca o impacto da exclusão comunicacional que os pacientes sofrem: “A questão é voltada ao bem-estar da pessoa. Quando isso é prejudicado, existe uma problematização na relação do pessoal e como a pessoa interage com o mundo e consigo mesma. Boa parte dos surdos são filhos de pais ouvintes que não sabem Libras, então afeta a socialização.”





Atendimento psicológico pode dar autonomia à comunidade surda
Para além dos benefícios clínicos, a psicologia pode ter um papel fundamental no processo de empoderamento e inclusão social de pessoas surdas. De acordo com a especialista Flávia Viana, a atuação psicológica pode contribuir diretamente para que a pessoa surda se reconheça em sua identidade, o que é essencial para o fortalecimento da autoestima e da autonomia. “A psicologia ajuda esse indivíduo a se entender como pessoa surda, a reconhecer sua identidade, sua língua e sua cultura. Isso tira o sujeito do lugar de negação e possibilita que ele reivindique seus direitos.”
Essa construção de identidade não é apenas individual, mas tem impacto direto na forma como a pessoa surda se posiciona no mundo. “O reconhecimento da surdez como uma diferença e não como uma limitação faz com que essas pessoas tenham mais condições de enfrentar barreiras, lutar por acessibilidade e participar dos espaços sociais com mais segurança”. A especialista reitera ainda que a psicologia pode levar a pessoa surda a sair de um quadro depressivo.
A inclusão, no entanto, também depende da sociedade como um todo. É preciso que espaços públicos e privados se adaptem para garantir a equidade no acesso a direitos, serviços e oportunidades, conforme a especialista. “É fundamental que a sociedade reconheça a surdez como uma diferença linguística. Isso significa respeitar Libras como primeira língua dessas pessoas, garantir acessibilidade em concursos, escolas, universidades e espaços de saúde”, afirma.
Trâmites administrativos interrompem atendimentos
Anunciado como uma iniciativa inédita na universidade para ampliar a acessibilidade no cuidado com a saúde mental de estudantes, servidores e terceirizados surdos, o atendimento psicológico em Libras no Serviço de Psicologia Aplicada (SEPA) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi suspenso antes mesmo de começar. O serviço, previsto para iniciar na última terça-feira (19), não chegou a realizar nenhum atendimento.
A proposta era oferecer escuta qualificada e gratuita, voltada exclusivamente para estudantes e servidores surdos da instituição, com atendimentos presenciais conduzidos por uma bolsista psicóloga fluente em Libras. A ação seria uma parceria entre o SEPA e o Centro Acadêmico Ulysses Pernambucano (CAPSI), órgão estudantil do curso de Psicologia, e tinha como objetivo garantir um espaço de acolhimento acessível e inclusivo.
A proposta surgiu a partir de uma demanda apresentada por estudantes do curso de Psicologia, que mantêm uma parceria com o curso de Letras Libras. Eles solicitaram uma reunião para expor as dificuldades enfrentadas pela comunidade surda no trânsito e no acesso aos serviços dentro da universidade. “Tornar esses serviços de saúde acessíveis para essas pessoas significa também garantir que elas tenham acesso aos direitos básicos”, disse Helena Xavier, membro da cadeira de acessibilidade do CAPSI que fez parte da proposição da iniciativa.
Porém, de acordo com a coordenação do SEPA, “trâmites administrativos” impediram a continuidade do projeto”. Ainda segundo o setor, não há previsão para retomada nem confirmação de que o serviço será efetivado futuramente.








