Com as mudanças constantes na comunicação e na forma de se consumir conteúdo com o advento das redes sociais, uma área específica da sociedade deve ganhar uma atenção especial: a saúde. E na opinião da jornalista e comunicadora especialista no assunto, Natália Cuminale, é essencial que médicos, profissionais da saúde e da imprensa utilizem as plataformas de modo que o conhecimento em relação à saúde e a ciência seja de forma mais acessível possível.
Ainda segundo Natália, fundadora da startup Futuro da Saúde, um hub de jornalismo de saúde voltado para trazer curadoria e debates sobre os desafios da saúde de forma compreensível e com credibilidade, os desafios na saúde do país são diversos e que o Poder Público precisa ocupar os espaços de comunicação nas plataformas.
A comunicadora e empreendedora esteve em Natal nesta semana para o lançamento do CDL Saúde, hub voltado à oferta de serviços, soluções e oportunidades para clínicas, consultórios, profissionais autônomos, gestores e estudantes da área da saúde. Ela ministrou a palestra “Futuro da Saúde e os próximos passos do setor” e conversou com a TN.
Natalia Cuminale é jornalista especializada em saúde. Com mais de 15 anos de experiência, a jornalista recebeu diversos prêmios na área, é apresentadora do podcast Futuro Talks, palestrante e mediadora de debates com grandes lideranças do setor.
Qual o principal desafio de traduzirmos um tema complexo que é a medicina e a ciência para o público em geral?
A comunicação tem evoluído muito. Acompanho o setor de saúde já há muito tempo, há mais de 15 anos, vendo todos esses processos que tem mudado. Então, a saúde mudou muito, a forma como a sociedade se informa também. Temos o advento das redes sociais que impactaram de uma forma muito expressiva o jeito que consumimos informação. Quem é jornalista e atua com comunicação precisa também se adaptar na forma de se trazer esse conteúdo, não só para veículos tradicionais mas para as redes sociais em formatos diferentes. Temos um momento que nossa atenção é mais limitada do que era no passado. Somos a sociedade que fica rodando a tela, capturando essa atenção. Então esse é o primeiro dos problemas, que é a gente pensar em produzir conteúdo em formatos que as pessoas também estejam dispostas a acessar e a consumir. Quando a gente pensa em comunicação e saúde, eu acho que todo mundo tem uma responsabilidade, como os médicos, os profissionais de saúde e precisamos produzir esse conteúdo num nível em que as pessoas compreendam. E acho que vem mais uma coisa dentro desse contexto e a última para a gente seguir avançando que é: muito da comunicação vai mudar ainda mais com a inteligência artificial generativa. Ela já está mudando. Então se antes olhávamos para o doutor Google, agora vamos começar a ver o doutor Chat GPT entrando na conversa e ele é muito convincente.
O poder público está começando a entender isso também, com vídeos no Instagram com legenda, mas ainda muito aquém do esperado?
A gente precisa ocupar os espaços, porque esses espaços, principalmente das redes sociais, eles estão cheios de pessoas que falam bem, que espalham desinformação, que ficam bem no vídeo, que não tem vergonha de se expor, enquanto quem tá ali estudando, quem tem informação relevante, acaba ficando muito retraído. Então, tem que se ocupar esses espaços, o governo tem que fazer isso, os médicos que estão ali atrás da ciência também tem que ocupar esse espaço pra tentarmos vencer essa batalha.
Como identificamos a desinformação em saúde?
Acho que a primeira coisa, é duvidar de tudo o que for muito catastrófico, muito fantástico. Precisamos precisa ler além das manchetes. É muito comum dentro da indústria das fake news tentar pegar as pessoas pela atenção de um título que seja muito interessante e que de alguma forma traga algum tipo de espanto, de choque. A primeira dica de todas é: vá além do título. Depois que você vai além do título, você tem que ver de onde vem esse contexto de informação e verificar a fonte da informação. Na era das redes sociais, alguém que tem uma boa oratória, vai falar para você de uma forma muito convincente, mas essa pessoa, está citando as fontes? Então primeiro é desconfiar, depois de fato verificar as fontes. Outra coisa que é fundamental nessa era das fake news é: se você está na dúvida, não compartilhe. Porque também é muito comum vermos algo que nos choca e num primeiro momento você simplesmente manda na setinha e fala: “Você viu isso?” E aí você ajuda a ampliar essa disseminação da desinformação.
Como tem sido sua experiência no Futuro da Saúde fazendo esse jornalismo com base em evidências. É um desafio para veículos e jornais terem essa editoria com mais cuidado?
O Futuro da Saúde, para trazer um pouco de contexto, é um portal e somos uma startup que olha para saúde de forma mais ampla. Cobrimos saúde pública, saúde suplementar, inovação, e trazemos essa referência e essa curadoria de informação para o setor da saúde. Então eu acabo falando, Dentro do Futuro da Saúde e o meu time para um público um pouco mais qualificado no sentido de que está mais acostumado com as informações de saúde. E quando você fala para um público mais geral você tem uma responsabilidade ainda maior de traduzir o conteúdo sem perder, obviamente, o que é mais relevante nisso. Dentro do Futuro da Saúde, isso sim é um desafio, porque sempre estamos atrás das melhores fontes, vamos atrás das fontes primárias, citamos fonte de informação e ainda traduzimos e trazemos contexto para os nossos leitores, porque acho que é fundamental nessa era da falta de curadoria.
O que você poderia definir como inovação em saúde e como saber se essa inovação é efetiva e vai melhorar a saúde coletiva?
O que a gente tem visto em termos de inovação em saúde, não está apenas atrelado à tecnologia. Muitas associamos a inovação à tecnologia, mas ela é uma ferramenta para que a inovação ocorra. Esse é um ponto bem relevante nesse sentido. Falando especificamente da inovação, você pode ir para o contexto do papel da tecnologia para ampliar acesso, pode-se pensar na inovação no contexto de se mudar os modelos de negócio e a partir disso ser inovador e ter escala. Pode-se também de alguma forma usar novos tipos de formulação quando estamos pensando em novos medicamentos para chegar as pessoas de uma forma mais fácil e acessível. Mas acho que pensando especificamente quando as pessoas querem falar de inovação, elas querem falar da tecnologia especificamente, a tecnologia é a grande aposta para quem está no setor da saúde. Telemedicina é uma das ferramentas, a inteligência artificial é outra, o uso dos dispositivos vestíveis, os chamados wearable é outra ferramenta. Temos visto uma grande evolução por parte da tecnologia para ajudar a melhorar a saúde.
Qual o impacto do jornalismo científico na prevenção de pandemias e crises sanitárias. Como fazer isso de forma realmente efetiva?
Nós que cobrimos saúde há muito tempo não estávamos acostumados nem preparados com a polarização política da saúde. Defender a ciência ficou atrelado a você defender um político X ou Y, e o que não deveria acontecer, na verdade. A ciência é o que a gente tem com base na evidência. Qual que é o papel do jornalismo científico nisso? É muito importante. É importante para conscientizar, para trazer as fontes certas e traduzir a informação de um jeito mais rápido e para motivar. Não combater fake news é um problema de saúde pública. Levar a informação correta, conscientizar a população, você faz com que as pessoas se vacinem, com a pessoa, com que as pessoas evitem a proliferação de doenças e isso pode trazer um impacto enorme.








