A eficiência do transporte público do Rio Grande do Norte passa por importantes investimentos, com a implantação de medidas que vão desde questões de infraestrutura, passando por discussões sobre revisão tarifária, até o melhor uso da tecnologia. Os ajustes, no entanto, dependem sobretudo do poder público, já que é o estado quem gerencia o serviço. Esta é a avaliação de Eudo Laranjeiras, presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Nordeste (Fetronor). Segundo ele, é necessário priorizar o transporte com políticas como a criação de corredores exclusivos para ônibus, melhoria das vias e reestruturação de paradas.
Para Laranjeiras, falta uma “gestão melhor sobre o sistema”, em um esforço que depende, em sua essência, da gestão pública. “O transporte é um serviço do Estado prestado por empresas privadas. É o Estado, por exemplo, quem determina itinerário e quantidade de dias de operação considerando finais de semana e feriados. A culpa da falta de estrutura não é do empresário. A priorização do sistema – para que ele seja mais rápido e eficiente – deve vir, portanto, do poder público”, afirma o presidente da Fetronor.
Uma das maneiras de garantir maior agilidade na operação, segundo ele, é a abertura de novos corredores exclusivos para ônibus nos principais centros urbanos do RN. “Com os corredores, os ônibus cumprem os itinerários de forma mais rápida, ficam menos tempo presos em congestionamentos, não têm necessidade de disputa por espaços e consomem menos combustível”, frisa. Eudo Laranjeiras cita também a necessidade de atenção ao estado das vias e dos abrigos de ônibus. “Temos problemas como ruas, avenidas e rodovias esburacadas e paradas sem as condições mínimas para atender os usuários”, diz.
“Os problemas se acumulam e acabam causando muito transtorno. É o passageiro que acha que vai ficar cinco minutos em uma parada sem cobertura, sob o sol ou a chuva, mas aí o ônibus atrasa porque está preso em um congestionamento já que não tem corredor exclusivo e a espera nessa situação passa para meia hora ou mais”, comenta ao mencionar que os corredores criados na antiga Bernardo Vieira (atual Nevaldo Rocha) garantiram um ganho de até 20 minutos por viagem para os usuários da zona Norte que trafegam pela via.
Os passageiros de Natal ou que vêm à cidade com frequência conhecem bem os problemas mencionados pelo presidente da Fetronor. O auxiliar de loja Francisco Braga, de 52 anos, mora em São Gonçalo do Amarante e trabalha em um posto de gasolina em Lagoa Nova, na zona Sul da capital. Na quarta-feira (2) à tarde, ele disse à reportagem, enquanto esperava o ônibus na Avenida Prudente de Morais para voltar para casa, que enfrenta desafios diários no deslocamento entre os dois municípios.
Um desses problemas foi observado de perto pela reportagem: as condições da parada em que ele estava. “Demora muito a passar o ônibus, que sempre vem muito cheio, mesmo às 5h, quando pego para vir trabalhar de manhã. Sem falar nessa parada, que não tem cobertura e a gente fica exposto a tudo”, disse Braga enquanto se protegia embaixo de um guarda-chuva, já que, naquela tarde, eram registradas chuvas na capital.
O aposentado Valmir Antônio, de 77 anos, também reclamou do serviço. “A situação de uma parada como essa é uma vergonha. Nada funciona bem no sistema, a condição dos ônibus não é boa, não tem climatização. Foi concedida isenção para o ICMS e o ISS, mas mesmo assim nada funciona”, desabafou o aposentado.
Subsídios podem gerar eficiência
Além das questões estruturais, outra medida que precisa ser levada em conta para tornar o transporte público mais eficiente são os subsídios e a revisão tarifária, segundo defende Eudo Laranjeiras, da Fetronor. Ele reconhece que o reajuste de preços das passagens é uma medida impopular do ponto de vista político, mas necessária. “Transporte público custa muito caro – sem falar que temos a questão das gratuidades que também precisam ser revistas pelo Governo, porque quem paga sozinho é o usuário. Então, os custos têm que ser melhor divididos”, sugere. Subsídios públicos seriam uma saída importante nesse aspecto, segundo Laranjeiras.
“O cliente quer melhorias, como ar-condicionado e ônibus novos, mas tudo passa pelos altos custos. E esses custos, é importante que se diga, já são subsidiados no mundo inteiro para o usuário. Em Natal, caso haja a licitação, está previsto um subsídio de R$ 60 milhões ao ano, ou seja, R$ 5 milhões ao mês, mas isso significa quase nada diante da operação feita” analisa, em seguida. Sobre o reajuste de passagens, Eudo Laranjeiras diz que, apesar das reclamações dos usuários sempre que a tarifa aumenta, o modo como a revisão é feita faz com que as empresas estejam sempre “correndo atrás” para tentar recuperar as perdas com a inflação.
Mais uma vez, aponta o presidente da Fetronor, a solução pode estar nos subsídios. “Eu não chamo nem de aumento de passagem, chamo de realinhamento de preço porque a revisão acontece, geralmente, a cada ano, então, as empresas estão sempre correndo para sobreviver à inflação. O aumento é indispensável embora não seja fácil para um gestor. Por isso avalio que seria muito melhor subsidiar o usuário”, avalia. Uma maior atenção ao serviço é essencial não apenas para melhorar a vida dos usuários, mas também pela importância que o setor ocupa na economia do Rio Grande do Norte.
Segundo Eudo Laranjeiras, em todo o Estado são cerca de 600 ônibus em operação diária (400 somente em Natal). São 2,4 mil empregos diretos, em média, sem contar a cadeia que gera postos indiretos, como fornecedores de diversos itens e combustíveis. O presidente da Fetronor elogia a isenção de tributos para o transporte público, como alíquota zero para o ICMS, do Governo do Estado, e do ISS, no caso do Município de Natal. “Hoje, nossa carga de impostos é mais federal. Nosso grande impacto é na vida dos usuários, porque levamos as pessoas ao trabalho, à escola e ao lazer. Estamos presente diariamente na vida de todos”, afirma.
Neste mês, a Fetronor completa 50 anos com várias conquistas, dentre elas, a adesão à tecnologia para modernizar o setor. “Uma das nossas lutas foi a bilhetagem eletrônica, implantada inicialmente em São Paulo e no RN. Destaco ainda as Normas Regulamentadoras (NRs) que ajudaram a estabelecer regras próprias para o setor e os benefícios para o trabalhador, como o regime de CLT”, destaca Laranjeiras. O uso da tecnologia, indica ele, tem sido primordial para melhorar o sistema também para os usuários. “Hoje temos os cartões eletrônicos, a biometria facial, o uso do Wi-Fi nos veículos, que está se generalizando e os aplicativos que indicam a hora em que os ônibus vão passar”, descreve.
Sest/Senat
Outra conquista para o setor ressaltada pelo presidente da Fetronor é a criação do Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest Senat), entidade que oferece serviços de saúde, formação profissional e qualidade de vida para trabalhadores do transporte e familiares. Em Natal, a sede do Sest Senat está localizada em Pitimbu, na zona Sul da cidade. Por lá são oferecidos serviços de saúde (fisioterapia, psicologia, odontologia e nutrição) e bem-estar (pilates), além de cursos da área de transporte.
São cursos especializados, como transporte de passageiros, transporte escolar, de carga, de produtos perigosos, bem como formação em NR, administração e logística. “Os serviços e cursos são totalmente gratuitos para os trabalhadores do setor e dependentes. Quem não trabalha nos transportes pode ter acesso aos atendimentos de saúde a valores mais em conta”, explica Cynthya Medeiros, diretora do Sest Senat Natal. A maior contribuição da entidade, segundo ela, é a oferta de melhor qualidade de vida para os colaboradores.
“Os cursos permitem que muitos mudem de área e isso faz com que eles relatem mais qualidade de vida e aprendizagem. Em relação aos atendimentos, muitos chegam aqui em busca de fisioterapia porque não conseguem andar, mas gostam tanto que acabam se tornando usuários fiéis do Sest Senat”, conta a diretora. A prevenção de riscos também é uma preocupação da entidade junto aos profissionais. “Inserimos várias ações ao longo do ano, como o Maio Amarelo [de prevenção de acidentes de trânsito], por exemplo”, cita Cynthya Medeiros.








