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A vida depois dos 80: a receita dos superidosos para manter a vitalidade

Eles já passaram dos 80 anos, têm saúde e vitalidade de sobra, com plena capacidade cognitiva e continuam interagindo muito bem socialmente e contribuindo com os mais jovens. Os chamados superidosos rebatem a ideia de como a sociedade encara o envelhecimento.

O cérebro médio diminui em volume e peso cerca de 5% por década após os 40 anos, com um declínio mais acentuado após os 70 anos. A redução do cérebro afeta particularmente as regiões envolvidas com aprendizagem e memória. No entanto, alguns fatores como genética, estilo de vida, prática de atividade física e alimentação contribuem significativamente para o retardo do envelhecimento do cérebro.

“A neuroimagem sugere que os superidosos perdem menos volume cerebral com a idade. Geralmente eles têm uma atividade física regular, têm um estímulo cognitivo constante, leem, escrevem, aprendem coisas novas, usam tecnologias ou até estudam regularmente. Um outro pilar desse estilo de vida saudável é que eles têm conexões fortes, mantêm os vínculos afetivos, vínculos sociais e um sentimento de pertencimento que é altamente protetor para o cérebro”, explica a médica geriatra Ângela Costa.

O estilo de vida saudável dos superidosos passa pela alimentação rica em frutas, vegetais, oleaginosas, peixes ricos em ômega 3, não consumir alimentos ultraprocessados, nem gorduras saturadas e trans. A geriatra Ângela Costa também afirma que os idosos têm de realizar exercícios de força, pelo menos duas vezes por semana, associados aos aeróbicos, além de atividades que envolvam coordenação e atenção, como ioga ou dança, exemplifica. Outro ponto que a médica enfatiza é a importância do sono de qualidade, pois durante esse período é “como se o cérebro limpasse as toxinas associadas ao Alzheimer”, explica.

O senhor José Bezerra, de 89 anos, surpreende a todos que o conhecem tanto pela jovialidade quanto pelas atividades que pratica. Ele ingressou na Marinha do Brasil aos 17 e, durante 30 anos, desenvolveu a carreira de militar e hoje é capitão reserva. Bezerra, como é mais conhecido, afirma que sempre foi muito estudioso, inclusive porque sua carreira é de aprendizado constante. “A carreira naval é uma carreira plenamente de estudo. Você não para de estudar um só dia, porque nossa atividade física, psicológica e emocional está toda voltada para sua carreira militar”, explica.

Bezerra conta que, enquanto militar, não era tão ativo nos exercícios, focava mais em cumprir a rotina de trabalho, mas sempre que tinha oportunidade procurava se exercitar. “Sempre que tinha oportunidade de juntar um grupo para fazer atividade física, o pessoal sempre reclamava um pouquinho, que eu era muito duro. Quando passei pra reserva, eu fiquei preocupado sem saber o que fazer. Eu já morava em Ponta Negra, então passei a correr na praia”, conta.

Após três décadas de serviço, a passagem para a reserva trouxe também um novo desafio, já que era uma vida diferente após anos na rotina militar. Este período permitiu que se dedicasse mais ao esporte, culminando em uma nova paixão por correr maratonas. Por volta dos 50 anos de idade, seu Bezerra começou a tomar gosto pela corrida, foi muito incentivado por familiares, participou de assessorias de corrida para ter um melhor preparo físico, e se tornou maratonista.

Bezerra conta que durante o período em que foi maratonista participou de inúmeras provas, inclusive uma internacional, em Santiago, no Chile, e uma maratona plena de 42 km. Além da corrida, seu Bezerra pratica ioga, que começou a aprender ainda na época da Marinha. “Depois, já na reserva, eu continuei praticando ioga e conheci uma outra filosofia que me ensinava a fazer meditação guiada e profunda”, relata.

O aposentado conta que, aos 83 anos, decidiu aprender e ter a experiência de mergulhar em águas abertas. Apesar da ressalva dos instrutores, seu Bezerra apresentou laudo médico e conseguiu fazer o curso “com restrições”. No entanto, na época ele não contou a ninguém para evitar preocupações, mas hoje todos o incentivam em todas as suas atividades. “O velho é aquele que não sonha, o idoso é sonhador, ele quer mais, ele quer viver cada dia como se fosse o último”, comenta.

Seu Bezerra conta que um exame solicitado por sua nutricionista mostrou que, mesmo aos 89 anos, sua idade fisiológica corresponde a 70 anos. “Eu resolvo tudo sozinho, dirijo. Eu me sinto muito bem”, afirma.

Vínculos sociais preservam o cérebro

Outro ponto importante que caracteriza um superidoso é a manutenção de uma vida social ativa. A neuropsicóloga, especialista em gerontologia, Joísa Araújo, explica que a participação social desempenha papel crucial na qualidade de vida dos superidosos. Esses indivíduos costumam estar muito engajados em atividades sociais, o que contribui para uma sensação de aceitação e pertencimento à sociedade.

A socialização não é um problema para Salete Macedo. Aos 85 anos, ela conta que tem em torno de 150 colegas que sempre a acompanham nas festas ou em viagens. A idosa sempre foi dona de casa, mas sempre gostou de realizar trabalhos manuais e, aos 60 anos, abriu uma loja de decoração de festas, onde trabalhou até os 75. Atualmente ela faz arranjos de cabeça, tiaras, crochê e tricô apenas para se distrair ou para presentear conhecidos. Ela mora sozinha, mas se diz muito independente e sempre participa de eventos ou viagens. “Eu vou para todo canto, faço mercado, vou à academia, lá eu sou a queridona, todos gostam de mim.”

Desde criança, uma das atividades preferidas de dona Salete é a dança. Ela participa de clubes, onde se reúne com as amigas para dançar. “Eu danço tudo que tocar. A gente chega de sete e meia, oito horas e vem embora de uma hora da manhã. Quando a gente vai viajar também me perguntam se vou, aí todas vão, tudo sou eu”, relata a idosa, que diz que gosta de agregar pessoas. Dona Salete conta que também tem muita facilidade em aprender de tudo. “Eu nunca fui pra aula pra aprender nada, o que eu vejo na televisão fico na cabeça, desenho e faço”, afirma. “Eu não quero parar, todo mundo manda eu descansar, mas eu só durmo na hora de dormir, enquanto isso vou fazendo minhas coisas”, conclui.

Já seu Bezerra afirma que reúne amigos para incentivá-los à prática de atividades. “Como eu sou uma pessoa relativamente ativa, procuro transmitir a minha experiência para meus amigos. Então, aqui no condomínio, eu convoco os idosos pra descer comigo e ensino alguma atividade. Eles adoram a minha disposição.”

Saúde não depende somente da genética

A neuropsicóloga Joísa Araújo afirma que existem fatores modificáveis que fazem com que as pessoas tenham maior probabilidade de ter um envelhecimento saudável e talvez chegar a ter um desempenho de um superidoso. “Existe um estudo muito interessante, que é um estudo longitudinal da saúde das pessoas idosas brasileiras que afirma que 5,3% dos idosos a partir dos 65 anos podem ter um alto desempenho cognitivo e funcional. Então os fatores que são fundamentais para um envelhecimento saudável são uma mistura de fatores genéticos e ambientais. Podemos incluir no nosso dia a dia para que a gente consiga envelhecer bem”, afirma.

A geriatra Ângela Costa explica que os superidosos possuem uma “arquitetura cerebral” diferente, com sinapses mais preservadas, uma combinação entre fatores genéticos, ambientais e comportamentais. “O que mais impressiona é que muitos dos superidosos mudaram os hábitos de vida já na vida adulta ou na velhice, mostrando que nunca é tarde para começar”, afirma a médica.

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