Larissa Duarte
Repórter
A anatomia humana é uma das bases do ensino em saúde, mas por trás das peças que formam o conhecimento dos futuros profissionais, há histórias de entrega e amor à ciência. No Centro de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Programa de Doação de Corpos se tornou um elo entre o fim de uma vida e o aprimoramento de muitas outras. Oficializado em 2012, o projeto atende mil alunos por semestre e nasceu do gesto de pessoas que decidiram doar o próprio corpo à Universidade após a morte, permitindo que estudantes aprendam na prática aquilo que não se ensina em livros.
De acordo com Celcimar Alves, professor da UFRN e subcoordenador do Programa de Doação de Corpos, a iniciativa surgiu de uma necessidade concreta e de um gesto simbólico. Graças a isso, a Universidade conseguiu garantir a continuidade das aulas práticas e do aprendizado de centenas de alunos todos os semestres. “Essa é a única maneira de atingirmos o aprendizado pleno do aluno. É o único instrumento didático que realmente permite compreender o corpo humano. Existem modelos, mas o estudante sente necessidade de ver o real”, relata.
Atualmente, o banco de doadores da UFRN ultrapassa 400 inscritos, e a média anual de corpos efetivamente recebidos varia entre seis e oito. Esses números, embora pareçam pequenos, são suficientes para manter a disciplina ativa e atender à demanda de cerca de mil alunos de cursos como Medicina, Odontologia, Fisioterapia, Enfermagem, Biomedicina, Nutrição e Fonoaudiologia. O programa opera dentro de uma estrutura legal consolidada, com doações seguindo as normas da Lei nº 8.501/1992.
“Em 2010, enfrentamos uma das maiores crises: não havia nenhum corpo disponível para o ensino na universidade. Foi nesse momento que decidimos institucionalizar o programa. Ao longo da última década, temos percebido uma resposta muito positiva da sociedade”, afirma Expedito Júnior, professor da UFRN e coordenador do Programa. Em vida, o processo é simples: o interessado precisa ser maior de 18 anos, preencher e assinar o termo de doação com duas testemunhas e apresentar documentos pessoais. A adesão pode ser feita presencialmente, no Departamento de Morfologia, ou pelo site oficial do programa.
Apesar da formalização, a decisão final ainda depende da família. O termo de doação, mesmo assinado, não tem valor jurídico para obrigar parentes a cumprir o desejo do doador. “Sempre reforçamos ao doador que esse documento reflete a vontade pessoal, mas quem efetiva a doação é a família. Por isso, é importante comunicar claramente aos familiares o desejo de doar. O termo não tem peso jurídico para obrigar a família. Se ela se recusar, a universidade não pode intervir”, ressalta o coordenador.
A universidade mantém diálogo constante com familiares, inclusive em momentos de despedida. O atendimento é feito 24h, sem custo algum para os parentes, e há contratos com funerárias em todo o Rio Grande do Norte. No caso de famílias em situação de vulnerabilidade, ainda é autorizada uma breve cerimônia no campus antes da entrega do corpo.
As homenagens póstumas podem ser feitas em um cemitério contratado pela UFRN, onde há quatro túmulos destinados aos restos mortais dos doadores. “Explicamos às famílias que ali está o espaço simbólico para homenagens”, explica Expedito. Além da estrutura de acolhimento, o programa também realiza um ato ecumênico com alunos, professores e parentes ao término de cada semestre.
Nas salas de anatomia, o respeito é uma regra. Os alunos são orientados desde o primeiro dia a tratar o corpo humano como o primeiro paciente de suas carreiras. “Nós também desenvolvemos ações voltadas à ética e à dignidade dos doadores. O cadáver é tratado como o primeiro paciente do estudante da área da saúde. Desde o corpo inteiro até um fragmento de unha, tudo recebe o mesmo respeito”, destaca Expedito.
Os estudantes sentem o impacto dessa convivência. No laboratório, onde o silêncio é quebrado apenas pelo som das explicações, eles aprendem mais do que anatomia. “Aqui, desde o primeiro dia de aula, esse foi um dos primeiros tópicos que a professora abordou com a gente. Foi algo que ficou bem marcado para mim: não pensar somente como uma peça de estudo, mas lembrar que ali já foi uma pessoa que foi e é amada por alguém. Ter respeito, cuidado, empatia”, relata o aluno de fonoaudiologia, Victor Chaves.
A mesma percepção de convivência com os corpos no laboratório é reforçada pela aluna Ana Cristina, que destaca o senso de empatia e responsabilidade. “Eu acho que é você realmente entender como está ajudando, porque aquilo não é apenas um objeto. Aquilo ali foi uma vida, teve família, teve uma história. Quando a gente vem estudar, é entender que precisa ter cuidado, zelo. Hoje, a gente cultiva isso no anatômico e, no futuro, vamos cultivar nas práticas clínicas, com nossos pacientes em vida”, acrescenta a estudante de fonoaudiologia.
Maioria das doações é feita por mulheres
De acordo com a coordenação do Programa, os dados revelam que 54% dos doadores são mulheres, e a maior parte tem entre 60 e 75 anos no momento da morte. A maioria se declara católica, mas há registros de ateus, budistas e espíritas. “Ainda existe tabu, mas o maior obstáculo é a falta de informação. Quando divulgamos o programa, as pessoas entendem que doar o corpo é tão digno quanto sepultar ou cremar”, diz Expedito.
Os motivos que levam alguém a doar o corpo são diversos, mas a vontade de contribuir com a formação de futuros profissionais é a principal. “Muitos doadores dizem que querem ajudar a sociedade mesmo após a morte. Em nossos formulários, 70% a 80% respondem que o principal motivo da doação é ‘contribuir para a melhoria do ensino e da formação dos profissionais da saúde’. Outros dizem que não querem ser sepultados ou cremados. Cada um tem uma motivação, mas todos compartilham a vontade de contribuir”, destaca o professor Celcimar Alves.

A legislação garante a segurança e o respeito em todo o processo. Os corpos são conservados com substâncias químicas, o que impede a decomposição e mantém as condições ideais de estudo. Após o período didático, as partes não utilizadas são sepultadas no cemitério parceiro da universidade. A instituição também mantém rígidas normas de ética e privacidade: é proibido tirar fotos dentro do laboratório.
O programa também recebe fetos e natimortos quando há consentimento dos genitores. O material é usado em estudos de embriologia e anatomia neonatal, fundamentais para alunos e médicos em formação. Durante a pandemia, as doações precisaram ser interrompidas por falta de amparo legal, mas foram retomadas com normalidade. “Mesmo quem doa órgãos pode doar o corpo depois. Por exemplo: alguém doa córneas, rins ou coração, mas o corpo pode ser encaminhado à universidade após esses procedimentos”, explica Celcimar.
Para a estudante Beatriz Urbano, essa experiência está sendo determinante na formação. “A gente entra aqui, nas primeiras vezes, tão amedrontado, e lembrar que, além de algo que causa medo, também é algo bonito. É um corpo que antes foi uma vida, assim como eu, que tinha sonhos e tudo mais. Agora faleceu, mas não acaba ali na morte: será ressignificado para um estudo que vai formar grandes profissionais, que vão contribuir com os que ainda estão aqui e salvar outras vidas”, avalia.
Entre as peças conservadas há histórias únicas, que não conseguiram ser avaliadas de forma virtual ou em bonecos. “Somente com o cadáver o aluno observa as variações reais do corpo humano. Modelos artificiais não mostram alterações anatômicas, nem casos únicos como o que temos agora: um corpo com inversão total dos órgãos torácicos e abdominais. É uma condição raríssima, um caso em 20 milhões. Em 46 anos de atividade, nunca tínhamos visto”, conta Celcimar. Ele próprio é doador. “Meu corpo está registrado para ficar na Faculdade de Medicina de Mossoró. Quem deveria gostar de mim era eu vivo, olhando nos meus olhos”, afirma.
Para se tornar doador, o interessado deve preencher o termo de doação disponível no site do Programa de Doação de Corpos da UFRN (www.doacaodecorposufrn.com.br). O documento formaliza a decisão pessoal e voluntária de contribuir com o ensino e a pesquisa na área da saúde. O termo pode ser preenchido tanto pelo próprio doador em vida quanto pela família, após o falecimento. Para validar o processo, é necessário anexar cópias dos documentos de identificação.
O formulário deve ser apresentado em duas vias e pode ser encaminhado de quatro maneiras: como anexo do formulário no próprio site, pelo e-mail [email protected], via entrega presencial ou pelos Correios. O termo solicita informações básicas como nome, data de nascimento, estado civil, profissão, escolaridade, religião, endereço, telefone e e-mail, além de um breve questionário sobre hábitos de saúde, cirurgias e uso de medicamentos. Todo o material é arquivado e passa a integrar oficialmente o cadastro de doadores da universidade.








