Depois de a Inteligência Artificial (IA) recriar a Natal do passado, chegou a vez de enxergar a capital do futuro. Por meio de imagens geradas pelo ChatGPT, o mochileiro e autônomo Paulo Henrique Viana vem usando sua criatividade e vivência por diversas partes do mundo para recriar referências internacionais na capital do Rio Grande do Norte, misturando o que a tecnologia tem de mais novo com a alma e os sonhos do povo potiguar.
Em um perfil criado em abril nas redes sociais, denominado iapotiguar, Paulo compartilha imagens de diversos pontos do RN. Ele já modernizou lugares como a igreja do Bom Jesus das Dores, na Ribeira, a orla da Redinha e a ponte de ferro sobre o Rio Potengi. Mas a criatividade vai muito além de apenas recriar espaços que já existem. O mochileiro deu vida a locais que poderiam ser criados, como um Parque do Pastel de Tangará – homenageando o famoso pastel para transformar a cidade em ponto de parada obrigatório no RN – e um Museu Potiguar em formato de camarão, com lojas, restaurantes, auditório e jardim sensorial.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o criador das artes contou que já esteve em mais de 20 países diferentes e que as ideias vêm de suas viagens internacionais. “Eu sou mochileiro. Já passei por 23 países. Sempre que eu olho alguma coisa diferente – uma praça com estacionamento subterrâneo, uma praça com show de luzes, um local com show de água – eu fico imaginando como seria em Natal”, comentou.
“Eu sempre tive essa paixão por urbanismo, por imaginar como as cidades poderiam ser mais humanas, mais voltadas para as pessoas. No Brasil a gente tem cidades projetadas para veículos. Quando eu passo por um espaço público, gosto de pensar como esse lugar poderia ser transformado para ser mais bonito, mais moderno, mais funcional”, completou Paulo.
O potiguar de 27 anos começou com um projeto sobre a Praia de Ponta Negra. Ele conta que, apenas por curiosidade, utilizou o ChatGPT – um chatbot de inteligência artificial – para repaginar a orla da praia, mas se surpreendeu com o resultado e resolveu criar o perfil nas redes para compartilhar o que havia feito. A partir disso, todos os outros projetos também foram criados inteiramente pela plataforma.
“Eu sugiro o que quero em tal local e, no final, peço o que ele [ChatGPT] sugere a mais. Por exemplo, no projeto Ponta do Morcego, eu pedi: quero que você crie um projeto para a Ponta do Morcego em Natal, chamado Ponto do Sol, que tenha roda-gigante de 100 metros, mirante de 150 metros, palco fixo, restaurantes, piso branco, laranja e amarelo para combinar com a futura orla da Praia do Meio e estacionamento subterrâneo. Aí ele cria todo o projeto baseado nisso”, explicou.


Paulo expressa felicidade em receber tantos comentários positivos nas postagens. Para ele, é gratificante despertar nas pessoas o interesse em imaginar como poderia ser aquele local. O criador reforça a importância de ver seguidores marcando políticos e empresários, gerando esperança para que a arte fictícia se torne real. “Essas postagens ajudam as pessoas a enxergarem o potencial da cidade de um jeito novo. Quando alguém vê uma praça redesenhada com mais verde, mais iluminação, espaço para convivência, passa a imaginar aquilo como possível, não como um sonho distante. No fim, o que eu tento fazer é usar a tecnologia para despertar a esperança e estimular o debate sobre o que queremos para Natal e o Rio Grande do Norte.”
Em sua última postagem, o camelódromo do Alecrim foi o grande protagonista. No projeto, é possível visualizar lojas climatizadas, área gourmet no terraço coberto, jardins verticais, portas de vidro e um verdadeiro centro de vendas no meio de um dos bairros mais movimentados da capital. Paulo conta de onde veio a inspiração para essa criação: “Eu pensei nos mercados europeus. Um mercado moderno, mas com os comerciantes simples que vendem capa de celular, roupa, sapato, mas lá é tudo bem arrumado, como um shopping. Na parte de cima, um mirante. Pedi para criar um camelódromo moderno, com jardim vertical, ar-condicionado, climatizado, área gourmet em cima para contemplar o pôr do sol e a região do Alecrim.”


Para o presidente da Associação de Empresários do Alecrim (AEBA), Matheus Feitosa, a reforma do camelódromo é um sonho possível. “Essa postagem mostra uma infinidade de possibilidades que podem ser feitas e que tanto o Alecrim merece quanto tem estrutura e capacidade para receber. Tudo que for feito ali em benefício, em melhorias, com certeza vai agregar em mais geração de emprego e renda, vai atrair um fluxo maior de pessoas, atrai turismo, atrai mais investimento, atrai organização”, comentou.
Matheus também enfatizou as condições precárias dos empresários que trabalham nos camelôs, ressaltando a vontade de ver o espaço reformado e vivo. “Os próprios camelôs das calçadas e os ambulantes têm a vontade de ver o Alecrim organizado, porque da forma que está, o espaço é indigno. Não tem um banheiro apropriado, o banheiro que existe fecha cedo, nem sempre pode ser usado pelos clientes porque não é ideal. Os permissionários do camelódromo também têm essa vontade de ver o espaço reformado e revitalizado.”
O presidente da AEBA informou ainda que um projeto de revitalização do camelódromo já foi discutido no ano passado com a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), mas que o órgão ainda estava analisando o que poderia ser feito. Matheus acredita que a reforma pode estar cada vez mais perto de acontecer. “É super possível, super viável. Inclusive, está no plano de governo da atual gestão, e a gente acredita que isso vai acontecer ainda nessa gestão. Estamos trabalhando para que isso aconteça este ano ainda, pelo menos os encaminhamentos”, concluiu.
A TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com a Semsur, mas até o momento desta publicação não obteve retorno.
O viajante Paulo Viana pretende criar ainda mais projetos e “continuar explorando o potencial da inteligência artificial para mostrar como Natal e o Rio Grande do Norte podem ser lugares mais modernos e inclusivos.” Ele também pensa em desenvolver um site mais interativo, onde a própria população possa enviar sugestões de lugares para transformar em IA, com um mapa que mostre os projetos já criados, permitindo que as pessoas cliquem e visualizem. Paulo falou ainda da hipótese de começar um diálogo mais direto com arquitetos, urbanistas e o poder público para que essas ideias possam sair do digital e ganhar vida de verdade. “O sonho é ver pelo menos um desses projetos se tornando real na nossa cidade”, completou.








