Bruno Vital
Repórter
O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação para apurar a possível atuação do criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein no aliciamento de uma moradora de Natal, mencionada em documentos tornados públicos no chamado Epstein Files, nos Estados Unidos. O procedimento está sob sigilo na Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes (UNTC). A informação, obtida com exclusividade pela TRIBUNA DO NORTE, foi confirmada pelo MPF na terça-feira (10).
A denúncia acolhida pelo MPF é baseada em análises de documentos públicos, divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que registram trocas de mensagens entre Jeffrey Epstein e uma personagem identificada como “Alexia”. Ao longo dos e-mails, o nome aparece com variações, como “Alexia Righi”, “Alexia Suriani” e “Ale”, entre outras grafias. É nessa sequência de comunicações que surge a menção à mulher descrita como “pobre, simples e da periferia de Natal” e cuja possível viagem internacional passou a ser tratada nas conversas.
No último dia 4 de fevereiro, a TN revelou menções diretas à capital potiguar nos Arquivos de Epstein. Além das conversas com Alexia, Natal é citada também em uma interação entre Epstein e o agente de modelos frânces Jean-Luc Brunel. Segundo investigações nos EUA, Brunel era um dos principais parceiros de Epstein, e que supostamente atuava como um intermediador para “captar” mulheres para o bilionário.
Na sexta-feira (6), a procuradora regional da República, Stella Fátima Scampini, deu continuidade à denúncia ao encaminhar ofício ao UNTC “dando conta de possível aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal/RN para exploração sexual nos EUA”.
Em nota enviada à TN, o órgão confirmou que “houve abertura de investigação” e que “investigações desse tipo correm em sigilo, dada a sensibilidade do tema e a necessidade de proteção das vítimas”. O MPF disse ainda que está atento aos desdobramentos do caso em todo o País. “A UNTC acompanha a divulgação dos arquivos do caso e está atenta aos fatos que envolvem cidadãos brasileiros ou que tenham sido praticados no Brasil”.
As mensagens denunciadas e analisadas pela reportagem foram trocadas entre 2009 e 2015 e registram uma interlocução prolongada entre Jeffrey Epstein e a mulher identificada como Alexia. As trocas de mensagens indicam que a primeira menção à suposta vítima – que nesta reportagem será identificada de forma fictícia como “Maria” – ocorreu durante o período do Réveillon de 2010 para 2011, em Natal.
Em uma conversa por e-mail com Epstein, cujo assunto é “A viagem de Maria”, no dia 2 de janeiro de 2011, “Ale” pergunta a Epstein “como devemos proceder” em relação a jovem identificada aqui como Maria. Ela sugere viajar em um mesmo voo com Maria para Nova York, argumentando que a garota não fala inglês, nunca viajou internacionalmente, não possui passaporte e vem de uma família “muito pobre” nos arredores de Natal. Ela completa: “Você vai adorar ela! Ela realmente é uma garota muito doce :)”.
Horas depois, a suposta intermediadora diz que não tem dinheiro para custear passaporte, visto e passagem e pergunta se Epstein poderia enviar dinheiro por MoneyGram – uma plataforma de transferência internacional de recursos. Ele responde: “Eu posso te dar dinheiro em Nova York”. Na sequência, Epstein pede mais fotos, pergunta em que cidade elas estão, solicita um telefone para contato e questiona onde estaria a irmã da suposta intermediadora. No dia seguinte, “Ale” responde que estava em Natal, na casa da mãe.
Em 4 de janeiro de 2011, Jeffrey Epstein retoma o interesse pela suposta vítima natalense e envia um e-mail para Alexia: “Pode tirar fotos melhores de Maria? Lingerie, biquíni”. Onze dias depois, ainda no mesmo contexto, Epstein demonstra hesitação e afirma que a “ajuda” poderia ser “mal interpretada”, dizendo que não poderia seguir adiante naquele momento. “Você sabe o que o pessoal pensa hoje em dia”. A essa altura, Epstein já havia se declarado culpado do crime de exploração de menores em 2008 e fechou um acordo para cumprir 13 meses de prisão.
Apesar do aparente recuo, o diálogo prossegue. Em 17 janeiro de 2011, Ale informa que “ela”, em possível referência a Maria, havia solicitado e pago o passaporte, que ficaria pronto no dia 26 daquele mês. Na mensagem, ela descreve a suposta vítima como “muito doce” e afirma que ela seria o “tipo” de Epstein, sugerindo que tivesse “uma chance” de conhecê-lo em uma próxima viagem a Paris. “Se por qualquer motivo vocês dois não se derem bem, você não a verá novamente”, completa.
Um dia depois da data prevista para a retirada do passaporte, Epstein pergunta a Alexia: “Ela pegou o passaporte?”
A reconstrução cronológica das mensagens indicam acompanhamento contínuo do processo por parte de Epstein, desde o envio de fotos até o pedido de confirmação sobre a retirada do passaporte. Os registros mostram que, de fato, Epstein pegou um voo comercial sozinho em direção a Paris em abril daquele ano, semanas após a troca de mensagens em que a cidade é mencionada como possível local de encontro.
Até o momento, no entanto, as investigações ainda não permitem confirmar se a moradora de Natal viajou, se houve encontro ou se qualquer crime foi consumado.








