Redação Tribuna do Norte
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17h00
Ananda Miranda
Repórter
Basta um passo para frente, um giro preciso e o público reconhece. Nas telas do cinema, fãs acompanham a trajetória de Michael Jackson com o novo filme em lançamento. Em Natal, o espetáculo ganha vida com artistas cover que transformam admiração em performance e levam ao palco uma homenagem fiel ao ídolo.
Os passos são precisos, o figurino é fiel — mas o nome não é coincidência. O potiguar Michael Douglas Souza trabalha como cover de Michael Jackson em eventos de Natal.
Batizado em homenagem a Michael Jackson, Michael Douglas cresceu com a trilha sonora do ídolo dentro de casa, influência direta do pai. “Por ser tão fã, quando ele teve um filho, ele colocou o nome de Michael. E aí, eu cresci ouvindo o Michael. Cheguei a acompanhar, na época, algumas coletâneas quando ele lançou. Sempre ouvia, ficava em casa sozinho dançando”, conta o artista.
E as semelhanças não param por aí: Michael Douglas fala baixo, quase em tom de sussurro — característica que também marcava as entrevistas de Michael Jackson.
A personalidade também revela semelhanças. “Eu sou muito tímido, e o Michael era aquela criança tímida, mas que, na hora de se apresentar, era incrível”, disse. A declaração veio enquanto vestia camisa branca com sobreposição vermelha, em referência ao estilo de Michael Jackson em contato com a imprensa.
Os primeiros passos vieram cedo, improvisados na sala de casa, diante da TV. Aos poucos, a brincadeira virou rotina. Sozinho, repetia coreografias, assistia a vídeos e tentava entender cada movimento. Em 2008, ainda tímido, decidiu levar aquilo para fora de casa.
As primeiras apresentações aconteceram em escolas, com figurino simples — calça jeans, sapato comum —, mas já com a mesma dedicação que hoje define o trabalho.
O ponto de virada veio no ano seguinte. Enquanto assistia a uma apresentação de “Man in the Mirror”, uma das músicas que mais o marcaram, recebeu a notícia da morte do artista. “Fiquei sem chão”, lembra.
A partir dali, o que era admiração ganhou outro sentido: passou a ser também uma forma de homenagem.
Desde então, Michael Douglas construiu uma trajetória baseada na repetição, no estudo e na persistência.
Vieram apresentações em eventos, casamentos e espaços culturais, incluindo participações em eventos geeks a partir de 2013.
Ao longo dos anos, o figurino ganhou mais detalhes, a performance ficou mais precisa e o compromisso com a fidelidade artística se intensificou.
Hoje, ele apresenta o show “Tributo Dangerous”, em homenagem a Michael Jackson, com produção assinada pela esposa Dayane Vieira.
Subir ao palco do Teatro Sandoval Wanderley, pela primeira vez, durante a entrevista à Tribuna do Norte, marcou a realização de um dos seus sonhos — e reforçou outros que ainda movem a carreira, como o de se consolidar como artista independente. “Na hora que o show começa, não tem tristeza. É celebração”, defende, emocionado.
Hoje, são quase duas décadas dedicadas a interpretar Michael Jackson. No palco, a timidez dá lugar a uma presença intensa, que ele próprio ainda se surpreende ao rever em vídeos. “Às vezes eu assisto e penso: fui eu que fiz isso?”, conta.
Paixão passada de geração em geração
Eles estudam cada detalhe: voz, figurino, gestos e até a presença de palco. Mas, durante as apresentações, não se esquecem do que os levou até ali — histórias e tradições familiares que ajudaram a construir essa trajetória.


As primeiras lembranças de Ernandes Ferreira, hoje conhecido artisticamente como Roy Cover, estão diretamente ligadas à descoberta de um ídolo que ainda nem parecia real. Nascido em 1972, mesmo ano de lançamento do álbum Got to Be There, ele teve o primeiro contato com Michael Jackson ainda muito pequeno, por meio da mãe, que lhe apresentava os desenhos dos Jackson 5.
A surpresa veio quando viu o grupo na televisão pela primeira vez. “No começo, eu achava que eles existiam só ali, como personagens, até que um dia os vi cantando na TV e falei: ‘são os do desenho’”, recorda Ernandes.
A partir daí, a música passou a ocupar um espaço constante na rotina. Por volta dos 5 anos, Ernandes já reproduzia passos em frente à TV e corria sempre que reconhecia alguma apresentação, com medo de perder qualquer detalhe. O que era brincadeira virou hábito — e, pouco a pouco, identidade.
As festas de aniversário também ajudaram a consolidar esse vínculo. Entre familiares e amigos, era comum que colocassem músicas de Michael Jackson para que ele dançasse. “Foi assim que tudo começou e, naturalmente, passei a levar isso a sério”, resume.
O processo de preparação começa bem antes de subir ao palco. Ernandes investe em ensaios frequentes, buscando se aproximar ao máximo dos detalhes das performances de Michael Jackson. “Assim como ele era perfeccionista, a gente também tenta chegar o mais perto possível, mesmo sabendo que ele é único”, explica.
A preparação inclui ainda a escolha dos figurinos — uma das etapas mais desafiadoras —, maquiagem e a definição do repertório, que sempre traz os clássicos.
Apesar da dedicação, viver exclusivamente como cover em Natal ainda é um desafio. Ernandes reconhece as dificuldades, mas não abre mão da carreira. “Infelizmente, não dá para viver só disso aqui, mas isso não diminui minha paixão”, afirma. Para manter o trabalho ativo, ele encontrou alternativas, como apresentações na rua, na calçada do Midway Mall.
A admiração por Michael Jackson também atravessa gerações e já faz parte da rotina em casa — a filha acompanha as apresentações e compartilha do entusiasmo pelo artista.
Talento percebido desde a época da infância
Luvas brilhantes, passos milimetricamente ensaiados e um carisma digno de um ídolo. Quem vê Felipe Côrtes no palco dificilmente imagina a pouca idade do artista. Aos 19 anos, ele concilia os estudos no Ensino Médio com apresentações em eventos, levando ao público um espetáculo inspirado no Rei do Pop.


Para alcançar esse nível de performance, o caminho começou cedo — assim como o do próprio cantor que o inspira. Felipe lembra com clareza do primeiro contato: foi assistindo ao clipe de Billie Jean, ainda criança, na televisão. “Eu era bem pequenininho e estava vendo o clipe passando. Eu lembro do detetive virando a esquina e o Michael encostado no poste. Quando o detetive tentava pegar ele, vinha um flash de câmera e ele sumia”, recorda.
Para Felipe, o fascínio pelo trabalho de Michael Jackson vai além da música ou da dança. Está ligado a uma espécie de “magia” que os clipes dos artistas transmitiam. “Muitas crianças veem o Michael como um super-herói. Eu também vejo assim”, afirma.
Segundo ele, os movimentos icônicos ajudam a construir essa imagem quase sobrenatural: “Ele se inclina para frente e não cai, parece que flutua quando anda. Nos clipes, ele se transforma: vira zumbi, lobisomem, robô. Isso prende a atenção de qualquer um.”
Além dos efeitos visuais e coreografias, o intérprete acredita que a presença de palco é um dos principais diferenciais. “A forma como ele se comporta no palco encanta ainda mais”, diz.
Reproduzir esse conjunto de elementos, no entanto, está longe de ser simples. “Interpretar o Michael não é para qualquer um. É preciso realmente gostar e se dedicar, porque não é fácil cantar e dançar como ele”, explica. Para Felipe, é justamente essa combinação de talento e autenticidade que mantém vivo o legado do artista e motiva outros performers a seguirem seus passos.
Apesar da identificação precoce, a decisão de se tornar cover só veio anos depois. Aos 11 anos, Felipe começou a dar os primeiros passos na imitação do artista. A motivação surgiu de forma inesperada: “Eu estava navegando no YouTube e, do nada, veio essa memória. Foi como um flash.”
Sem saber o nome do cantor ou da música, ele decidiu investigar a lembrança. “Eu só lembrava da cena, não sabia quem era o artista. Fui pesquisar pelas características do que eu tinha visto”, explica o artista. A busca o levou novamente ao universo de Michael Jackson.
A partir desse reencontro com a obra do artista, a admiração se transformou em algo maior: começou a escutar e a assistir a clipes de Michael com frequência.
Foi em um show de Rodrigo Teaser, um dos principais intérpretes no mundo, que a decisão veio. “Quando eu saí desse show, eu falava para minha mãe: ‘eu quero comprar uma peruca, eu quero fazer cover do Michael’”, relata.








