Redação Tribuna do Norte
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23h55
Este mês começou com um importante alerta para a proteção de crianças e adolescentes: a campanha Maio Laranja, de combate ao abuso e à exploração sexual de menores. Segundo o Instituto Liberta, no País, mais de quatro crianças abaixo de 13 anos são estupradas por hora, sendo a maioria (86%) meninas. O cenário alarmante exige esforços para reverter os números.
Para a educadora parental e especialista em inteligência sexual e proteção infantil, Kennya Gralha, o enfrentamento passa, primeiro, pela informação e fortalecimento dos vínculos familiares. Ela indica que o ponto de partida é oferecer à criança um ambiente realmente seguro onde a criança se sente autorizada a falar sobre qualquer coisa. “Outro ponto essencial é ensinar, desde cedo, que o corpo é dela. Isso significa permitir que ela diga ‘não’ para beijos, abraços ou qualquer toque que cause desconforto, mesmo que venha de alguém próximo”, sugere. Quando os pais forçam esse tipo de interação, passam uma mensagem contraditória: a de que o corpo dela pode ser controlado por outros, segundo Kennya Gralha, autora do livro MEU CORPO NINGUÉM TOCA. Eu grito! Eu corro! Eu conto! (Much Editora).
O ensino sobre o próprio corpo é outra estratégia e deve ser feita com clareza, para que a criança consiga relatar situações de risco. A especialista ressalta que é preciso quebrar o tabu de falar sobre educação sexual. “Quando feita de forma adequada à idade, a educação sexual não antecipa fases nem erotiza a criança. Pelo contrário: ensina limites, autonomia e segurança”, diz. Ela ressalta que crianças que recebem esse tipo de orientação tendem a revelar situações de abuso mais cedo e com mais clareza, reduzindo o tempo de exposição e os danos. “Crianças informadas são menos vulneráveis à ação do agressor, porque o abuso depende, muitas vezes, do silêncio, da confusão e da falta de informação. E, quando ela é ensinada sobre sexualidade e autoproteção, o abusador é inibido.”
É importante, ainda, que os adultos reconheçam eventuais riscos. Kennya Gralha alerta que não existe um sinal único que confirme abuso e que é preciso atentar às mudanças, principalmente as que fogem do padrão da criança. “Se passa a haver isolamento, demonstração de medo de alguém específico, agressividade ou regressões, como voltar a fazer xixi na cama, ela está comunicando algo”, aponta. Outro sinal importante é a sexualização incompatível com a idade. “Falas, brincadeiras ou conhecimentos que não condizem com o desenvolvimento esperado. Também podem aparecer sinais físicos, como dores, irritações ou infecções recorrentes na região genital, sem causa médica clara”, acrescenta.
De acordo com o Instituto Liberta, a cada 10 casos de estupro de crianças, sete acontecem dentro de casa, cenário que exige atenção redobrada. Kennya Gralha indica que, nesses casos, a proteção não pode depender apenas de “confiar nas pessoas”. Segundo ela, é preciso uma abordagem mais estratégica para impedir abusos. “A criança precisa saber que pode contar com mais de um adulto. Pai e mãe não podem ser o único canal. Quando ela entende que existem outras pessoas confiáveis para recorrer, o risco de silêncio diminui, principalmente quando o agressor está no convívio.”
Outro ponto crítico é parar de observar apenas quem as pessoas ‘são’ e começar a observar comportamentos. Isolamento com a criança, excesso de proximidade e quebra de limites físicos precisam ser levados a sério, independentemente de quem seja. “Proteger, nesse contexto, não é viver desconfiado, mas é não ser ingênuo”, diz.








