Redação Tribuna do Norte
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17h17
Felipe Salustino
Repórter
Em 2026, os potiguares irão acompanhar mais uma Copa do Mundo 12 anos após a realização do Mundial em Natal sem conseguir contar com parte das obras prometidas pelo Poder Público à época da preparação para o evento na capital, e que deveriam adequar a cidade para o chamado “padrão-Fifa” de competição. Algumas das intervenções anunciadas sequer sairão do papel. Outras, iniciadas há mais de uma década, seguem sem conclusão. O custo total das obras anunciadas para a Copa de 2014 em Natal foi de, pelo menos, R$ 6 bilhões, conforme previsão inicial, em investimentos como infraestrutura, saneamento básico, transportes e turismo.
Uma das principais intervenções ainda não concluída é o túnel de macrodrenagem da Avenida Jerônimo Câmara, que promete integrar as águas de drenagem das zonas Oeste e Sul de Natal. Com 4,7 km de extensão, o túnel vai interligar as lagoas de captação do Centro Administrativo, de São Conrado e do KM-06, com a promessa de acabar com mais de 30 pontos de alagamento nos bairros de Nova Descoberta, Lagoa Nova, Dix-Sept Rosado, Candelária, Nazaré e Bom Pastor. A construção foi iniciada em 2013, com custo previsto de R$ 143 milhões.
A obra tem se arrastado ao longo dos anos cercada por problemas técnicos, contratuais e orçamentários. No ano passado, um novo prazo para conclusão foi definido: janeiro de 2026. No entanto, um mês depois do previsto, em fevereiro, a Prefeitura lançou um aviso de licitação para contratação de empresa especializada em engenharia e arquitetura para execução dos serviços de reestruturação geométrica e pavimentação asfáltica da via. A sessão estava marcada para o dia 13 de março.
A Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra) informou que o cronograma inicial da obra do túnel de macrodrenagem passou por ajustes ao longo da execução em razão de intercorrências técnicas. A previsão de conclusão, anteriormente estabelecida para julho deste ano, foi readequada após ocorrência registrada na Rua Presidente Castelo Branco, passando a ter como nova estimativa o mês de setembro. Em relação aos valores, a obra está atualmente estimada em torno de R$ 200 milhões, em decorrência de atualizações ao longo do período de execução.
Outra intervenção anunciada e de responsabilidade da Seinfra foi a reforma e padronização de calçadas em 55 quilômetros nas avenidas de acesso à Arena das Dunas, que recebeu os quatro jogos do Mundial realizados em Natal. O custo anunciado para os serviços era de R$ 25,4 milhões. Segundo a pasta, as obras foram concluídas, mas não foi informada a data da conclusão.
Melhorias no sistema ferroviário estão pendentes
Também apresentado em 2013 como legado da Copa do Mundo de 2014, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) de Natal traria integração da mobilidade urbana, passando pelo Aeroporto Internacional Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, e pela UFRN. A linha formaria um anel ferroviário integrando a Grande Natal, desde Extremoz, até Nísia Floresta, em 56 km com 12 VLTs e duas locomotivas.
Novas estações seriam criadas para facilitar a integração física com outros modais de transporte e contariam com estrutura urbanizada, bicicletário, área de passeio e equipamentos urbanos entre a Ribeira e a zona Norte. As linhas do sistema de trens urbanos até Nísia Floresta foram implantadas, mas a expansão para o trecho Norte até agora não foi concluído. Três estações que integram a chamada Linha Roxa, que ligará a Região Metropolitana aos municípios de São Gonçalo do Amarante e Extremoz, ainda não entraram em operação, mesmo que aparentemente estejam concluídas, conforme reportagem da TN publicada em março de 2025.
Em nota, a Companhia de Trens Urbanos (CBTU) afirmou que o projeto rendeu ao RN a inclusão de R$ 311 milhões no PAC – Mobilidade, Grande Cidades, para requalificação e reestruturação do sistema, contemplando a construção de estações, ampliação da via férrea, compra de 12 VLTs e duas locomotivas – estas últimas entregues durante o governo de Dilma Rousseff. “Com o impeachment da então presidente, o projeto ficou paralisado. O PAC teve o fim decretado em 2019 e o orçamento de R$ 311 milhões foi cancelado”, explicou a Companhia.
Segundo a empresa de trens, também em 2019, o senador Rogério Marinho destinou R$ 73 milhões à CBTU Natal para executar o referido projeto. “Esses recursos foram destinados para executar a construção do ramal turístico (original do projeto) da Linha Branca (Parnamirim-Nísia Floresta), e parte da Linha Roxa (na BR-101) que se destina ao Aeroporto de São Gonçalo, correspondentes à terceira e quarta fase do projeto original. Ao final, os recursos totalizaram R$ 101 milhões”, detalhou a CBTU.
Quanto ao trecho que ainda está pendente, a Companhia informou que este apresentou uma “série de inconsistências” após a construção e que ainda não foram resolvidas, não sendo liberado para operação por não atender aos requisitos de segurança ferroviária. O projeto à época de Dilma foi retomando recentemente, com a reforma de estações antigas, construção de 6 novas estações, recuperação de todos os 5 VLTs e dois trens. Além disso, foi feito um novo encaminhamento ao Ministério das Cidades para inclusão no Novo PAC, segundo a CBTU.
Entretanto, segundo a Companhia, o projeto não foi contemplado até o momento, uma vez que há dificuldades de acesso ao programa decorrente do fato de a CBTU ter sido incluída no Plano Nacional de Desestatização do Governo Federal.
Estado perdeu R$ 78 mi para obras na Roberto Freire
Um dos principais corredores comerciais e turísticos de Natal, a avenida Engenheiro Roberto Freire, na zona Sul, estava entre as vias da capital que deveriam receber uma das maiores intervenções para a Copa do Mundo de 2014. Como previa um dos projetos, a “nova” Roberto Freire teria 12 pistas (seis em cada sentido), um viaduto com seis vias na altura da Rua Walter Fernandes, um túnel nos cruzamentos da avenida Abraham Tahim (em frente à antiga UnP) e outro túnel com início nas imediações da rotatória da Via Costeira.
Cinco passarelas seriam erguidas ao longo da rodovia, que teria ainda uma ciclovia às margens do Parque das Dunas. Os recursos disponibilizados ao Governo do Estado para as intervenções somavam R$ 75 milhões, mas uma série de protestos e reprovações por representantes do comércio, entidades de moradores de Ponta Negra contra o projeto levou à perda de prazos e os contratos foram encerrados em julho de 2021 pelo Governo Federal sem que as obras saíssem do papel.
A Secretaria de Infraestrutura (SIN) do RN informou, no entanto, que trabalha em um novo projeto de requalificação da avenida. Os detalhes não foram fornecidos, mas, segundo a pasta, no final deste mês será realizada uma licitação para a escolha de empresa que deverá executar as obras. “O Governo do Estado obteve, através do PAC, a destinação de recursos financeiros para a elaboração de um projeto executivo para intervenções na avenida, o que motivou a realização de certame licitatório destinado à contratação de empresa especializada, ora em curso, cuja sessão de apresentação de propostas ocorrerá no próximo dia 28”, pontuou a Secretaria.


Outra obra incluída no planejamento para a Copa do Mundo de 2014 em Natal foi o Pró-Transporte. Os serviços começaram em 2007, divididos em três etapas – duas delas, ao custo de R$ 59 milhões, ainda não foram concluídas. A SIN informou que a previsão de finalizar a segunda fase é o final de abril, para, em seguida, serem iniciados os trâmites com vistas à terceira etapa.
Além das obras não concluídas ou deixadas de lado, outras intervenções foram entregues somente anos após a realização da Copa do Mundo em Natal. A requalificação da avenida Felizardo Moura, que liga a zona Norte às demais regiões da cidade, é uma delas. Os serviços foram iniciados somente em 2022 e finalizados em 2024.
Também foram entregues com atrasos os acessos ao aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves. Outra obra que registrou o mesmo problema foi o Complexo Viário Dom Eugênio Sales, inaugurado em junho de 2024 e que inclui um conjunto de viadutos e túneis no entorno da Arena. O túnel da avenida Capitão-Mor Gouveia, da rua Raimundo Chaves e o viaduto da marginal da BR-101, foram finalizados um mês depois.








