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Violência contra a mulher impulsiona procura por aulas de defesa pessoal

Kayllani Lima Silva
Repórter

O aumento da violência contra a mulher, com destaque para a alta nos índices de feminicídio no Brasil, tem fomentado um movimento de resistência e busca pela autoproteção entre as mulheres. Em Natal, o cenário se reflete na procura por aulas de defesa pessoal e na formação de turmas exclusivas para o público feminino. Segundo relatos colhidos pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, além do aprendizado técnico, a modalidade permite a construção da autoconfiança diante de situações de risco.

Em uma oficina gratuita de defesa pessoal promovida pela Polícia Civil do Rio Grande do Norte (PCRN) na última semana, voltada especialmente para o público feminino, pelo menos 30 mulheres estiveram presentes com o desejo de aprender técnicas para se defender. O momento foi ministrado por instrutores e instrutoras da instituição para a comunidade interna e externa às forças de segurança estaduais.
No início da aula, acompanhada pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, os instrutores lançaram uma pergunta simples: “quem aqui já realizou alguma arte marcial?”. Poucas mãos se levantaram, mas não demorou muito para que as participantes fossem apresentadas a técnicas básicas de defesa. Os movimentos misturaram estratégias de modalidades diversas, como Muay Thai e jiu-jitsu. Os professores simularam, ainda, ataques comuns cometidos por agressores.

Flora Santos, de 32 anos, resolveu relembrar técnicas durante a oficina – Foto: David Emanuel/TN Play

A psicóloga e assistente técnica-forense, Flora Santos, de 32 anos, compartilha já ter feito aulas de Muay Thai há alguns anos. No entanto, com o tempo foi esquecendo as técnicas da arte marcial. A oficina chegou no momento certo para ela, uma vez que passou por uma situação que a deixou insegura há algumas semanas. “Recentemente eu estava entrando no carro e um homem me abordou. Felizmente não foi uma situação ruim, mas eu me senti vulnerável porque ele me pediu dinheiro”, relata.

Somado à sua experiência individual, ela conta que os casos constantes de violência contra a mulher foram mais um estímulo para aprender a se defender. “Tanto dentro de casa quanto fora de casa, a gente pode sofrer alguma situação de violência. Então é importante sabermos minimamente como se comportar se isso acontecer. A gente espera que não aconteça, mas ninguém sabe o dia de amanhã”, ressalta Flora Santos.

A necessidade de se proteger e auxiliar na defesa de outras mulheres também levou Marlene Silva de Freitas até a aula da PCRN. Integrante do Grupo Afirmativo de Mulheres Independentes do Rio Grande do Norte (Gami/RN), ela comenta que vai levar os aprendizados para as mulheres do seu bairro e da instituição.

Entre as principais orientações, ela destaca como andar na rua com mais segurança e atenção. Embora nunca tenha sofrido um ataque físico, compartilha já ter passado por situações de preconceito de gênero e deixa um incentivo para outras mulheres: “Vamos nos fortalecer, pois precisamos estar atentas para nos defender e ajudar outras mulheres”.

Além das participantes que nunca tinham tido contato com a defesa pessoal, ou não lembravam das técnicas, a oficina chamou a atenção de quem tem esse universo na rotina. Esse foi o caso da administradora e bolsista da Fundação de Amparo e Promoção da Ciência, Tecnologia e Inovação do RN (Fapern), Ana Carolina Souza da Silva, de 24 anos, que pratica Muay Thai.

Ana Carolina Souza da Silva, de 24 anos, pratica Muay Thai e compartilha que não conhecia algumas técnicas – Foto: David Emanuel/TN Play

“Hoje em dia estamos vendo nos noticiários os altos índices de feminicídio. Essa aula me despertou uma curiosidade para aprender novas práticas. [Aprendi] muita coisa da base do jiu-jitsu, muita saída que a gente nem imagina [que existe]”, relata.

A instrutora de defesa pessoal e escrivã da Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Norte, Thaissa Meireles, explica que a proposta da aula foi apresentar às mulheres técnicas de proteção para situações de risco recorrentes. É o caso do agarramento pelos braços, cabelo ou todo o corpo.

Para além da técnica, ela aponta que a segurança construída pelas mulheres é um dos principais pontos das aulas. “A arte marcial traz confiança, postura e posicionamento. Você é colocada sob estresse e se conhece melhor. Então, quando você muda a sua postura para uma mais confiante, as pessoas mudam o jeito de tratar você. Deixar de ser um alvo fácil e ter esse entendimento é o que tem incentivado cada vez mais mulheres a treinarem”, compartilha.

Uma perspectiva semelhante é compartilhada pelo instrutor de defesa pessoal da Academia de Polícia Civil do Estado (ACADEPOL/RN), Alexandre Freire. De acordo com ele, a defesa pessoal funciona como um sistema e apresenta técnicas que precedem a necessidade de sair de um ataque físico, como a antecipação de riscos. “As mulheres que treinam a defesa pessoal, muitas vezes conseguem antecipar esse tipo de situação”, destaca.

Público feminino tem crescido

A sócia-gerente da academia Thai Gym, na zona Sul de Natal, Thalita Ribeiro, aponta que a necessidade de ter reações mais estratégicas tem incentivado mulheres a procurarem por aulas de Muay Thai na academia. Além de turmas mistas, a unidade inaugurou há uma semana uma turma exclusiva para mulheres. Os encontros são ministrados por uma professora e uma instrutora nas terças e quintas-feiras.

Além das turmas mistas, são cada vez mais comuns aulas só para mulheres| Foto: Divulgação

“Os fatores que trazem essas mulheres para a academia são diversos, mas não tenho dúvida de que com o aumento da violência elas têm sentido essa necessidade de encontrar meios para uma reação de proteção”, relata a sócia-gerente da Thai Gym.

Atualmente, 36% do público de alunos da academia é representado por mulheres. Segundo Thalita Ribeiro, o percentual pode ser considerado um avanço, uma vez que não faz muito tempo em que 90% dos matriculados eram homens.

Thalita Ribeiro, sócia-gerente da Thai Gym, aponta que a academia prioriza ensinamentos sobre o uso correto da força – Foto: cedida

“A gente precisa trabalhar muito mais no âmbito da educação deles. Temos uma grande turma de jovens na academia e uma preocupação é trabalhar com eles o uso correto da força, orientando sobre quando ela cabe ou não. A gente acredita que mais importante que elas aprenderem a se defender é eles aprenderem a não atacar”, destaca a sócia-gerente.

Na Pitbull Brothers Arena, assim como na Thai Gym, a maior parte das turmas são mistas e atualmente são mais de 50 mulheres matriculadas. O proprietário da academia, Lukream Pacheco de Melo, aponta que no final do ano passado observou a necessidade de abrir uma turma exclusiva para as mulheres. Isso porque muitas alunas se sentem mais confortáveis em praticar esportes de contato apenas na presença de outras mulheres.

Lukream Pacheco de Melo (de óculos à direita) com a turma exclusiva de mulheres da Pitbull Brothers Arena – Foto: Bju Produções

O aumento da procura pela modalidade tem como motivação central a necessidade de se proteger diante da alta de casos de violência contra a mulher. “A modalidade que ministra as aulas de defesa pessoal é o jiu-jitsu. Então chamamos de jiu-jitsu e defesa pessoal. Muitas mulheres, inclusive, estão procurando defesa pessoal e terminam ficando para praticar o jiu-jitsu”, compartilha o mestre da academia, onde também são ofertadas aulas de No-Gi, boxe e Muay Thai.

“As aulas envolvem três dimensões, que são a segurança, a confiança e a autonomia. Não se trata apenas de aprender golpes, mas de desenvolver consciência e capacidade de reagir em situações difíceis ”, explica Lukream Pacheco de Melo.

Uma das alunas que foi apresentada às artes marciais a partir dessa turma foi a natalense Judy Wama, de 26 anos, proprietária de uma loja de suplementos. Amante dos esportes, ela já tinha passado por outras modalidades até chegar na Pitbull, incluindo natação, futebol e musculação. Com a insegurança diante da alta da violência contra a mulher, resolveu aprender técnicas para se proteger. “A gente não sabe quando vai precisar, mas é melhor se precaver”, comenta.

Judy (de camisa verde) começou as aulas no fim do ano passado e não se vê mais sem a modalidade – Foto: cedida

Ela conta que fez uma aula experimental no fim do ano passado e não pensou duas vezes antes de realizar a matrícula. Hoje ela já vislumbra algumas competições. “Estou dentro do esporte e não quero mais sair. Agora é só aprender cada vez mais”, garante.

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