Sentir dores de cabeça e recorrer ao uso da dipirona, independentemente de prescrição médica, pode parecer um cenário cotidiano e inofensivo. O uso indiscriminado de medicações comuns, no entanto, pode gerar uma série de prejuízos à saúde. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, sangramento digestivo, alterações hormonais e trombose são apenas alguns dos efeitos adversos.
A médica endocrinologista Raissa Castro explica que, embora esses medicamentos possam ser adquiridos sem prescrição médica, o uso inadequado pode gerar impactos diretos na saúde. Entre os principais erros, ela cita o aumento da dose para consumo, uso constante por dias seguidos, mistura com outros medicamentos e o consumo para mascarar sintomas que precisam ser investigados.
“Isso pode atrasar diagnósticos e provocar efeitos adversos importantes, como sangramento digestivo, piora da pressão, lesão renal, alterações hormonais e até infecções mais graves, dependendo da medicação”, aponta a especialista. Além disso, ela destaca que o uso prolongado sem supervisão pode tornar o problema crônico, como acontece em quem usa analgésicos diversas vezes por semana.
Entre os medicamentos mais usados sem supervisão, Raissa Castro chama atenção para os anti-inflamatórios, como ibuprofeno e naproxeno, os descongestionantes nasais e orais, os analgésicos usados repetidamente para dor de cabeça e os anticoncepcionais hormonais. Neste último caso, ela alerta que anticoncepcionais combinados aumentam o risco de trombose, especialmente em mulheres com fatores como obesidade, tabagismo, enxaqueca com aura, pressão alta, histórico de trombose e algumas condições cardiovasculares.
Nos casos de medicamentos como ibuprofeno e outros anti-inflamatórios, a médica endocrinologista Larissa Pimentel aponta que o uso inadequado pode gerar uma série de consequências, sobretudo em pessoas com fatores de risco. É o caso de aumento do risco de sangramento gastrointestinal, gastrite, úlcera, retenção de sódio e água, piora da pressão arterial, lesão renal e eventos cardiovasculares, como infarto e AVC.
“Esse risco pode surgir já nas primeiras semanas de uso contínuo e aumentar com a duração do tratamento. A dose utilizada, a duração do tratamento, os medicamentos que você utiliza previamente e as suas doenças prévias podem ser contraindicações para uso desses medicamentos”, explica a médica endocrinologista.
Outra dúvida comum é se a ingestão regular sem prescrição pode “viciar” o organismo. De acordo com Larissa Pimentel, isso pode acontecer em alguns casos, mas tecnicamente não representa uma dependência química. É o caso do spray descongestionante nasal, que pode levar à rinite medicamentosa e à sensação de que a pessoa não consegue respirar sem o produto.
Uma visão semelhante é compartilhada por Raissa Castro. Além da dependência funcional ou efeito rebote, ela explica que alguns medicamentos podem gerar tolerância, retirada ou necessidade de monitoramento, mesmo sem “vício” propriamente dito. “Então, a ideia de que ‘remédio comum não causa dependência’ é incorreta”, alerta.
Especialistas apontam importância do acompanhamento
Com os inúmeros riscos associados à ingestão e manuseio inadequado de medicamentos, Raissa Castro chama atenção para a importância da orientação médica para avaliação de sintomas e possíveis tratamentos. “Além disso, o médico ajusta a dose, o tempo de uso, verifica contraindicações, interações medicamentosas e o perfil individual do paciente. O que é seguro para uma pessoa jovem pode ser arriscado para um idoso, gestante ou alguém com doença crônica”, destaca.
Já a médica endocrinologista Larissa Pimentel aponta para medidas que podem ser adotadas pela população. “A orientação é simples: usar a menor dose eficaz, pelo menor tempo possível, ler a bula, evitar associações por conta própria e procurar avaliação médica quando o sintoma se repete, persiste ou piora. O perigo da automedicação não está apenas no remédio em si, mas na falsa sensação de controle que ela dá”, destaca.
Entre os principais sintomas de alerta, estão o início súbito de fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou entender, desvio da boca, perda de visão, tontura intensa ou dor de cabeça súbita e diferente do habitual. “Diante de qualquer um desses sintomas, a orientação é procurar atendimento imediato, porque, no caso do derrame, tempo é cérebro”, aponta a médica endocrinologista.








