Bruna Torres
Repórter
No cruzamento das avenidas Amintas Barros com a Salgado Filho, diariamente, das 16h às 19h, a startup O Pão Nosso de Cada Dia une empatia, empregabilidade e inclusão social para uma família de venezuelanos com a venda de pães em um dos semáforos mais movimentados da capital. O projeto surgiu no dia 17 de março, diante de um incômodo da arquiteta Larissa Giffoni, 40, que, ao transitar pelas ruas de Natal, notava diversos imigrantes em situação de vulnerabilidade social, com placas feitas à mão, pedindo dinheiro, doações e ofertas de emprego. “Um dia eu sonhei que vendia salada de frutas no sinal, pensei ‘por que não dar para as pessoas no sinal vender?’ Ficou inviável por ser perecível, então viemos com a ideia de vender o pão”.
Ao lado de seu esposo, o administrador Ronaldo Marques, 42, Larissa atua na startup O Pão Nosso de Cada Dia, que surgiu em uma colaboração com o projeto Viva Esperança e o Projeto Barnabé, que acolhem e alfabetizam imigrantes em vulnerabilidade social. “O Pão Nosso de Cada Dia faz menção à oração. Não é por acaso que é esse nome. Todos os dias, eles saem de casa para vender e ganhar o pão”, explica Larissa.
A empresária destaca que, após um período de estudos e preparação, a startup contou com a ajuda de um amigo responsável por uma empresa de restaurantes e panificação bastante tradicional em Natal, que é responsável pela produção de 50 pães ao dia. “É importante que as pessoas saibam que é um pão de qualidade, feito dentro dos padrões de segurança alimentar. Porque, quando você compra no sinal, nem sempre ‘confia’ naquilo que você está comprando”, afirma a idealizadora.
O grupo é formado por quatro integrantes da mesma família, Maritza Maria Garcia Arazuri, Alexia Rivero, Silvia Arazuri Garcia e José Manoel Garcia Arazuri, pertencentes à tribo indígena Warao. Anteriormente, eles eram pedintes nos semáforos das proximidades e estavam expostos às mais variadas formas de violência. Maritza Maria, 26, mora em Natal há um ano com sua família, que reside no bairro de Cidade Nova e é composta por 15 pessoas, incluindo adultos e crianças. Ela destaca a alegria em fazer parte do projeto, diferente do contexto de violência e insegurança que vivia. “Eu estou gostando desse trabalho. É muito bom para ajudar a minha família. Graças a Deus, estou trabalhando aqui com a minha família. Eu pedia no sinal com as crianças e sofria muito”.
Cada pão é vendido a R$ 12,00 e, até o momento, foram arrecadados em torno de R$ 3.600,00. A startup não lucra com os valores das vendas; os recursos são utilizados para a panificação e pagamento dos trabalhadores, com os valores repassados diariamente por meio de PIX. E, quando a startup não vende toda a remessa, eles contam com o apoio de amigos e familiares para manter não somente o produto dentro do padrão de qualidade e validade, mas também para o fomento do projeto. Em alguns casos, Larissa e Ronaldo também fazem doações.
Conforme Ronaldo Marques explica, como pais de três filhos, ele e sua esposa sentem satisfação e felicidade ao ajudar outras pessoas: “Nos angustiava ver pais com crianças de colo pedindo PIX para comprar fraldas e leite. Nossa ideia é que eles [trabalhadores] não sentissem que tinham que nos repassar algum valor, mas sim que a gente pudesse contribuir 100% com o sustento deles”.
Emprego e inclusão social
A venda de pães chamou a atenção dos motoristas e transeuntes, alguns deles tendo o primeiro contato com a iniciativa, como, por exemplo, o empresário Max Marcelino, 38, que, após comprar o pão, relatou ter sido pego de surpresa. “Eu gosto quando vejo as pessoas trabalhando, vendendo algum produto, não apenas pedindo. Quando estão trabalhando, as pessoas geram renda e mais empregos”.
Segundo Ronaldo, com os valores repassados ainda nas vendas realizadas após o fim do dia, os trabalhadores buscam repor suas necessidades com a compra de alimentos, roupas e contas da casa. Além disso, a iniciativa também está em expansão para contemplar outros grupos vulneráveis, incluindo mães solos que pretendem vender o pão em suas comunidades. “O maior sentimento para nós que empreendemos é ver as pessoas felizes com o nosso projeto. São muitas dificuldades humanitárias de necessidades básicas e essa parceria reacendeu para eles a esperança de ter uma qualidade de vida melhor”.
O argentino Victor Acuna mora em Natal há 25 anos e é um dos colaboradores do Pão Nosso de Cada Dia e do Projeto Barnabé, que auxilia em torno de 500 imigrantes na capital potiguar e também em João Pessoa. “Essa ação cria dignidade e satisfação para eles, valorizando principalmente o trabalho. Essa é a mensagem que queremos passar: se você se esforça, você consegue”.
Venezuela ocupa 3º lugar no ranking migracional no RN
Segundo o Censo Demográfico (2022), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Norte tinha 411 residentes cujo país de nascimento era a Venezuela. Conforme os dados do IBGE, o número de estrangeiros no Estado triplicou no último Censo Demográfico (2022): de 1.753 pessoas em 2010 para 4.472 em 2022. Os argentinos assumiram a liderança, seguidos pelos estadunidenses e venezuelanos. Contudo, esse aumento no fluxo populacional é um reflexo da crise humanitária e da escassez de alimentos e medicamentos, que levaram 7,7 milhões de venezuelanos a buscarem refúgio em outros países, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).








