Os Estados Unidos ampliaram a pressão sobre o Brasil ao divulgar dois relatórios com críticas diretas ao país, atingindo tanto o ambiente comercial quanto decisões do Judiciário. As manifestações ocorrem em um momento de incerteza na relação com o governo Lula, levantam preocupações sobre impactos no cenário político e eleitoral e reforçam o clima de tensão entre Brasília e Washington.
Nesta quarta-feira (1º), o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) divulgou um relatório que traça um panorama crítico das relações comerciais com o Brasil e aponta uma série de entraves enfrentados por empresas americanas no país. O material é parte de uma investigação aberta pelo órgão ainda no ano passado, com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA – instrumento que permite a aplicação de tarifas e outras restrições contra países acusados de práticas desleais.
No documento, o governo americano critica as tarifas elevadas a produtos estrangeiros, o sistema tributário e o ambiente regulatório brasileiro, considerado “pouco previsível”. O USTR menciona ainda:
- propostas legislativas que podem impactar plataformas digitais e empresas internacionais;
- circulação de produtos falsificados e pirateados, com menção à região da Rua 25 de Março, em São Paulo;
- exigências técnicas, licenciamento de importações e regras consideradas pouco transparentes; e
- preocupação com possível tratamento preferencial ao Pix, que poderia prejudicar empresas estrangeiras de pagamentos digitais.
Paralelamente, o Comitê Judiciário da Câmara dos EUA acusou o Judiciário brasileiro de impor um “modelo de censura com alcance global”.
O relatório aponta que decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinaram a remoção de conteúdos e contas em redes sociais com alcance global, atingindo inclusive usuários residentes nos Estados Unidos. Segundo o documento, essas ordens, em diversos casos, envolveram conteúdos de natureza política, incluindo críticas ao STF, e podem afetar a liberdade de expressão protegida pela Constituição dos EUA.
O texto também cita os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro como alvos de Moraes. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA, teria sido alvo de medidas que limitam sua atuação nas redes, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) é citado sob a avaliação de que decisões do ministro podem impactar o debate público no Brasil às vésperas das eleições, ao atingir opositores e restringir sua presença nas redes sociais.
Ainda nesta quarta (1º), o Departamento de Estado dos EUA, em nota enviada ao portal Metrópoles, manifestou “sérias preocupações” com decisões judiciais brasileiras que restringem a liberdade de expressão online no Brasil e o acesso à informação. O órgão também citou possíveis ações do governo Lula que estariam suprimindo opiniões políticas desfavoráveis sem o devido processo legal – sem especificar quais medidas.
Após a divulgação do relatório, Eduardo Bolsonaro disse que as manifestações do governo dos EUA sobre o Brasil mostram “preocupação” dos americanos com o pleito eleitoral deste ano, e que o endosso do secretário de Estado, Marco Rubio, ao relatório mostra que os EUA estão “atentos” à “perseguição e censura” no Brasil.
Segundo o estrategista internacional Cezar Roedel, o material divulgado abre espaço para uma possível escalada nas tensões entre Brasil e Estados Unidos nos próximos meses, especialmente no contexto eleitoral. Segundo ele, o avanço da investigação comercial do USTR, somado às críticas americanas sobre liberdade de expressão, tende a dificultar o relacionamento entre os governos Lula e Donald Trump.
Roedel também avalia que neste momento há uma “janela de possíveis medidas e sanções comerciais” por parte dos EUA contra o Brasil, uma vez que Washington pode adotar uma postura mais dura diante do perfil mais protecionista da economia brasileira e do atual alinhamento internacional do governo Lula com países como Irã, Rússia e China.
Novas críticas ocorrem antes de encontro entre Lula e Trump
Donald Trump e Lula passaram a ter uma relação mais cordial após Assembleia-Geral da ONU, quando o presidente americano mencionou ter havido “química” entre os dois. Depois do episódio, o governo Trump isentou produtos brasileiros de diferentes setores do “tarifaço” do ano passado, mesmo antes da derrubada pela Suprema Corte americana, além de suspender as sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e sua mulher, Viviane Barci.
Um encontro bilateral chegou a ser previsto para março, no contexto de negociações sobre tarifas, segurança regional e terras raras, mas a guerra entre os EUA e o Irã levou ao adiamento da reunião, ainda sem nova data definida.
Agora, as novas críticas do governo americano e o endurecimento da retórica antiamericana por parte do presidente brasileiro colocam em xeque essa aproximação.
Segundo reportagem do jornal O Globo, o governo brasileiro já avalia que a pressão americana contra o Brasil pode se intensificar nos próximos meses, especialmente com o avanço da investigação aberta pelo USTR. Autoridades ouvidas pelo jornal acreditam que há expectativa de que a Seção 301 substitua o “tarifaço” do ano passado por ações mais direcionadas e potencialmente mais duras contra setores específicos da economia brasileira.
À Gazeta do Povo, a especialista em finanças e tributação Adriana Melo aponta que, no cenário atual, o relatório do USTR pode até abrir caminho para novas tarifas ou exigências de mudanças em áreas sensíveis, como serviços digitais e regras comerciais.
Já o relatório do Comitê Judiciário da Câmara, segundo a especialista, tem maior peso político e pode incentivar novas propostas de sanções individuais contra autoridades brasileiras, nos moldes da Lei Magnitsky, ou novas restrições de entrada nos Estados Unidos.
Crime organizado é mais um entrave entre Lula e a Casa Branca
A relação entre os governos do Brasil e Estados Unidos está em corda bamba também devido ao interesse do governo Trump em classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.
A medida está sendo discutida dentro da estratégia de segurança regional de Washington e pode ampliar instrumentos legais dos EUA para aplicar para sanções, bloqueio de ativos e restrições financeiras contra integrantes e colaboradores desses grupos criminosos.
Em resposta à Gazeta do Povo, o Departamento de Estado afirmou que vê organizações criminosas brasileiras como “ameaças significativas à segurança regional devido ao envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional”, mas não confirmou oficialmente a classificação como terrorismo.
Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro demonstram preocupação com o impacto da medida, que poderia abrir espaço para ações mais duras dos Estados Unidos no país.
Histórico de tensão
Durante o ano passado, o governo Trump adotou uma série de medidas contra o Brasil, incluindo a abertura da investigação com base na Seção 301, a imposição de tarifas adicionais que chegaram a 50% sobre produtos brasileiros e a revogação de vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Naquele mesmo ano, Washington também aplicou sanções com base na Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, sob acusações relacionadas à supressão de liberdade de expressão. Parte dessas medidas foi posteriormente revista, mas o episódio marcou o ponto mais baixo nas relações bilaterais em décadas.
Apesar de negociações e tentativas de reaproximação ao longo do fim de 2025, o acúmulo de disputas comerciais, divergências institucionais e conflitos na área de segurança mantém o relacionamento entre Brasília e Washington em um cenário de instabilidade.
A Gazeta do Povo solicitou ao Itamaraty um posicionamento sobre as questões apontadas pelo Legislativo e pelo Executivo dos EUA, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.








