Os leitos destinados ao Método Canguru no Hospital Santa Catarina, em Natal, estão bloqueados desde dezembro de 2025 devido a uma reforma paralisada. A situação tem provocado impactos diretos na assistência neonatal, com relatos de superlotação na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) e riscos à saúde dos recém-nascidos.
A Unidade de Cuidados Intermediários do Método Canguru (UCINCa) — modelo de assistência baseado no contato pele a pele entre mãe (ou pai) e bebê prematuro —, conhecida como “Mãe Canguru”, tem capacidade para 12 leitos destinados a bebês prematuros e de baixo peso que já não necessitam de cuidados intensivos, mas ainda precisam de acompanhamento ao lado das mães até a alta hospitalar.
Em outubro, o hospital foi surpreendido pelo início de uma reforma, e, em dezembro, o setor precisou ser fechado. Segundo relatos, o barulho e a poeira inviabilizaram a permanência segura dos recém-nascidos no local.
Sem a disponibilidade do setor, os bebês que seriam encaminhados para a ala canguru passam a ficar em leitos de médio risco da UTI neonatal. Como consequência, recém-nascidos em estado grave podem enfrentar espera por leitos, chegando a permanecer no centro obstétrico ou cirúrgico até que haja liberação, o que agrava o risco à assistência, de acordo com profissionais da saúde do hospital.
A permanência prolongada na UTI aumenta a exposição a infecções hospitalares, já que o ambiente concentra pacientes mais graves e procedimentos de maior complexidade. Quanto maior o tempo de internação nesse setor, maior o risco para os recém-nascidos, que já se encontram em situação de vulnerabilidade.
A obra da ala “Mãe Canguru” está com cerca de 70% de execução, mas ainda não pode ser utilizada. Segundo profissionais da unidade, a empresa responsável pela obra retirou estruturas como sanitários, chuveiros, pias, além de parte da instalação elétrica e dos aparelhos de ar-condicionado. Com isso, o espaço ficou sem condições de uso.
Diante desse cenário, não é possível retomar o funcionamento do setor, nem mesmo de forma parcial, com número reduzido de leitos. A reativação do serviço depende da conclusão integral da obra e da reinstalação dos equipamentos básicos necessários para o atendimento.
A entrega estava inicialmente prevista para 7 de janeiro. No entanto, ainda em dezembro do ano passado, a empresa responsável informou que suspenderia os serviços devido à falta de pagamento.
As últimas informações repassadas pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), por meio da equipe do hospital, indicam que a obra já teria sido paga, integral ou parcialmente. No entanto, não há confirmação detalhada sobre o estágio financeiro do contrato. De acordo com a equipe do hospital, a ala canguru não apresentava problemas estruturais que justificassem uma intervenção urgente.
No Método Canguru, as mães permanecem em tempo integral com os filhos, fortalecendo o vínculo e contribuindo para o desenvolvimento dos recém-nascidos. Já na UTI, o contato é restrito a horários específicos, geralmente a cada três horas, o que limita essa proximidade e pode afetar o processo de vínculo.
Segundo a técnica de enfermagem da unidade, Ana Karla Galvão, o bloqueio dos leitos do setor Canguru compromete diretamente o fluxo assistencial da maternidade. “A impossibilidade de transferência dos recém-nascidos clinicamente estáveis para o setor Canguru compromete o fluxo assistencial da maternidade, ocasionando superlotação da UTIN, com ocupação prolongada de leitos por recém-nascidos que já poderiam estar em cuidados intermediários humanizados”, afirma.
Segundo a profissional, a situação também reduz a oferta de vagas para novos pacientes graves, incluindo recém-nascidos encaminhados de outros municípios e unidades de referência.
Com isso, há risco de atrasos ou até negativa de admissões, o que pode expor neonatos a agravamento clínico e infecções.
Além dos impactos na assistência, o problema tem provocado sobrecarga física e emocional nas equipes multiprofissionais. “Os servidores do setor Canguru foram realocados em diversos outros setores da maternidade, situação que os deixa angustiados, apreensivos, ansiosos, o que prejudica muito a saúde mental dos servidores”, lamenta.
O Sindicato dos Trabalhadores em Saúde (Sindsaúde RN) formalizou denúncia sobre a situação e encaminhou ofício ao Ministério Público, que abriu um procedimento para apuração do caso.
Desde então, a entidade aguarda a realização de diligências e de uma visita técnica por parte dos órgãos responsáveis. A partir da instauração do processo, as providências passam a seguir o trâmite institucional do Ministério Público.
O Hospital Santa Catarina é referência no atendimento à gestação de alto risco no Rio Grande do Norte e conta com estrutura para assistência a recém-nascidos de média e alta complexidade. O hospital foi o primeiro do Brasil a ser considerado referência nacional no Método Canguru.
A reportagem da Tribuna do Norte procurou a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN) para esclarecer os motivos da paralisação e obter informações sobre novos prazos para a retomada das obras, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.








