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Famílias de crianças com autismo relatam desafios na volta às aulas

Kayllani Lima Silva
Repórter

O início do ano letivo começou com um novo processo de adaptação pelo estudante Kelvin Javier Silva de Castro, de 5 anos, em um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) de Natal. O estudante está enquadrado entre os níveis 1 e 2 de suporte do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e integra o grupo de 3,3 mil alunos que precisam de atenção especializada na rede municipal da capital. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação (SME) do Município, atualmente o quadro conta com 1,6 mil profissionais para auxiliar crianças com autismo nas salas de aula, entre estagiários e profissionais de apoio escolar. Para corrigir o déficit atual, a pasta prevê a contratação de mais de mil estagiários e 50 educadores sociais.

A mãe de Javier, a psicóloga Keite Daiana da Silva Castro, de 34 anos, compartilha que o filho ainda apresenta dificuldades na conexão com outros estudantes, mas avançou no desenvolvimento da fala e já consegue expressar suas vontades. Como toda criança com autismo, precisa de maior assistência dos professores: “Ele ainda tem muita resistência, tanto para ir para a escola quanto para entrar na sala, pois não gosta de ficar em lugares fechados”, explica.

A psicóloga garante, contudo, que o estudante voltou à sala de aula mais preparado neste ano. Isso porque já frequentou uma creche e iniciou o estágio escolar quando a família morava no Rio Grande do Sul. Aliado a isso, o acolhimento na nova escola tem sido positivo. “As professoras são muito carinhosas e acolhedoras, tanto que ele chega lá, abraça-as e lhes dá beijo”, relata.

Keite reconhece o cuidado com o filho, mas não deixa de chamar a atenção para a necessidade de maior conscientização nas escolas sobre o autismo. “Eu acho que existe resistência, às vezes, por parte de outras crianças, porque muitas não entendem ainda o que é o autismo. Quem sabe uma educação sobre isso nas escolas seria muito positivo”, defende.

A mãe do estudante compartilha que os primeiros sinais de autismo no filho foram apontados por um médico pediatra durante uma consulta. Na época, sentiu um misto de sentimentos ao ouvir o especialista: o choque pela descoberta, a necessidade de procurar mais informações sobre o TEA e a busca pelo acolhimento adequado.

Entre as principais características apresentadas por Javier estavam não olhar diretamente nos olhos de outras pessoas e a dificuldade no desenvolvimento da fala. “Eu não sabia o que fazer, como reagir e que cuidados teria que ter. Mesmo que ele tivesse dois anos e eu percebesse alguns comportamentos diferentes, como pais, muitas vezes, naturalizamos algumas coisas. Pensamos ‘isso é normal e está tudo bem’ e uma pessoa de fora vai e diz ‘não é bem assim’”, aponta a psicóloga.

Procurando um especialista, pouco depois recebeu o laudo apontando que o filho é uma criança com TEA e deixou de alimentar quaisquer comparações entre seu filho e outras crianças: “Passei a olhar mais para ele como um ser individual. Querendo ou não, nós somos pais e, às vezes, a gente acaba comparando”.

Atualmente, além das aulas no CMEI, Kelvin faz terapias com psicólogo, fonoaudiólogo e terapeuta funcional uma vez por semana. Tudo é custeado pela própria família na rede privada. “A maioria das pessoas não consegue [assegurar as terapias] pelo Estado. Eu já passei mais de um ano tentando no Rio Grande do Sul e não consegui. Aqui, pelo que converso com outras mães, também não é muito diferente”, relata.

Plano individual


A rotina cheia e o desafio de ingressar em uma nova escola da rede municipal de Natal também chegaram para os gêmeos Alan Patrick da Costa Nunes e Alexandre da Costa Nunes, de 10 anos, que apresentam, respectivamente, TEA nível 3 e 2 de suporte. A mãe deles, a enfermeira Patrícia Carla da Costa Souza, de 38 anos, que atua como terapeuta de análise do comportamento, conta que a volta às aulas tem acontecido em paralelo às sessões de Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicado), terapia ocupacional e fonoterapia dos pequenos.

Os gêmeos Alan Patrick da Costa Nunes e Alexandre da Costa Nunes, de 10 anos apresentam TEA nível 3 e 2 de suporte| Foto: Cedida

A enfermeira relata que começou a perceber os sinais de autismo, inicialmente, em Alan quando ele tinha um ano de idade. “Ele não percebia pessoas e objetos e também não brincava de forma funcional. Durante a gestação, também teve algumas complicações de desenvolvimento intrauterino. Tudo isso foi me sinalizando que tinha algo a ser avaliado”, conta.

Foi durante o processo de avaliação do filho que os próprios profissionais resolveram incluir Alexandre, que tinha começado a manifestar algumas regressões no comportamento. Os irmãos receberam o laudo cerca de um ano depois, mesmo período em que ingressaram em um CMEI de Natal.

De acordo com Patrícia, o início da vida escolar dos filhos foi permeado por desafios. Na época, a professora dos gêmeos nunca tinha dado aulas para alunos com neurodivergência, e os demais professores da instituição não tinham recebido o preparo adequado para acolher crianças com esse perfil.

Apesar de alguns avanços, a enfermeira comenta que muitas lacunas permanecem. “Ainda não consigo vislumbrar a verdadeira inclusão em nenhum espaço pedagógico. O que temos, muitas vezes, é a permanência dos alunos na sala de aula. Então o professor acolhe, recebe e faz algumas atividades que acredita serem adaptadas, mas está totalmente fora do contexto de uma verdadeira inclusão”, critica.

Neste ano, a mãe de Alan e Alexandre espera uma realidade diferente, pois a escola a informou de que os estudantes terão um Plano Educacional Individualizado (PEI) e um auxiliar individual. Os dois também são acompanhados por duas terapeutas no âmbito escolar, uma vitória alcançada junto ao plano de saúde dos filhos por meio de liminar judicial.

Outro ponto positivo na nova escola, relata, está no acolhimento que sua família recebeu antes mesmo do início das aulas. Junto aos filhos, ela teve a oportunidade de visitar a instituição para dar maior previsibilidade aos pequenos. “Essa aproximação foi fundamental para que, no primeiro dia de aula e nos subsequentes, eles se sentissem mais adaptados. Os professores também têm sido bastante acessíveis”, afirma.

Especialista destaca papel da conscientização

O psicólogo Rodolpho Cortez, especialista em neuropsicologia, explica que a busca por previsibilidade na rotina é uma das principais características do TEA. Ele adverte, contudo, que essa neurodivergência é como uma régua que divide diferentes estágios de manifestação.

Por conta disso, as escolas precisam estar preparadas para atender às diferentes individualidades dos estudantes. Entre elas, são comuns a necessidade de instruções objetivas, estímulo à socialização e maior atenção à hipersensibilidade, seja ela auditiva, visual, olfativa ou tátil.

O especialista observa, ainda, ser fundamental conscientizar toda a comunidade escolar sobre o autismo e outras neurodivergências, incluindo os trabalhadores de outras áreas e os estudantes não atípicos.

Rodolpho Cortez aponta que atualmente a realidade encontrada na rede pública em geral inclui diversos gargalos para atender crianças com TEA, incluindo falta de formação continuada e baixa valorização dos professores. Ele adverte que as escolas precisam contar com profissionais capacitados para a educação inclusiva.

No processo de retorno às aulas, o psicólogo explica que algumas dicas simples podem ser seguidas. É o caso da implementação gradual da rotina escolar dos estudantes antes do início das aulas, conversas objetivas sobre o retorno e antecipação de mudanças, como a troca de sala e professores.

SME prevê novas contratações

A SME informou que o acompanhamento dos estudantes da Educação Especial, incluindo os alunos com TEA, é realizado por estagiários e profissionais de apoio escolar que recebem formação anual de 20h. A rede conta, ainda, com 138 professores de Atendimento Educacional Especializado (AEE) que realizam qualificação a cada 15 dias.

“Atualmente, a rede conta com aproximadamente 1.400 estagiários desempenhando atividades de acompanhamento pedagógico. Soma-se a esse quantitativo cerca de 200 profissionais de apoio escolar, assegurando suporte individualizado conforme a necessidade apresentada”, disse a pasta.

Para ampliar o quadro neste ano, a Secretaria divulgou mais de mil vagas destinadas a estágio e iniciou a contratação de 50 novos profissionais do cargo de Educador Social. A previsão é que estes últimos comecem a atuar em março deste ano.

Atualmente, todas as 147 unidades de ensino da rede municipal de Natal contemplam alunos com TEA. A rede conta com 83 salas de recursos multifuncionais, das quais 76 apresentam atendimento de profissionais especializados, e as demais devem receber professores aprovados em concurso que serão convocados.

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