Apesar do avanço de leis e da ampliação de mecanismos de proteção, especialistas avaliam que o enfrentamento ao problema exige mudanças mais profundas, sobretudo na educação. Esse debate esteve presente no 1º Congresso Potiguar da Associação Brasileira de Advogados – Mulheres & Líderes, que ocorreu nesta quarta-feira (11), no Hotel Majestic.
O evento reúne representantes da advocacia, do Judiciário, do Ministério Público e da gestão institucional para discutir, ao longo de todo o dia, temas como protagonismo feminino, liderança, governança e enfrentamento às diversas formas de violência contra a mulher.
Para Gleyse Raulino, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB e palestrante do painel “Papel do Homem no Combate às Violências Contra as Mulheres”, promover desde cedo uma formação baseada na igualdade de gênero e no respeito entre meninos e meninas é um passo fundamental para reduzir a violência e transformar padrões culturais que ainda sustentam comportamentos machistas na sociedade.
Conforme Raulino, a violência contra a mulher vem aumentando em todo o país e o Rio Grande do Norte acompanha a tendência. “A gente sabe que nos últimos anos, especialmente com as redes sociais, a gente está tendo grupos masculinistas que vêm ali disseminando discursos de ódio contra as mulheres”, disse a advogada.
Enquanto as mulheres apresentam posições cada vez mais progressistas, cresce entre os meninos uma tendência mais conservadora, segundo Gleyse Raulino. “Pela primeira vez temos uma geração de meninos mais conservadores do que seus pais”, destaca, avaliando que o cenário é um sinal de alerta sobre tendências na educação.
O painel do evento abordou formas de educar sem colocar qualquer gênero em posição de superioridade sobre o outro. A educação deve ensinar meninos e meninas a se reconhecerem como iguais.
A proposta é formar uma cultura de respeito, na qual os meninos não sejam educados a acreditar que as meninas são subordinadas ou lhes devem obediência. “Eu acredito que, com base nessa educação de base, a gente vai conseguir realmente construir uma sociedade que trate homens e mulheres com respeito para a igualdade”, defende Gleyse Raulino.
A programação contou com cinco painéis que abordaram temas relacionados à advocacia, à liderança e ao papel da mulher nos negócios e nos espaços estratégicos de poder.
O evento também inclui debates sobre gênero, desafios estruturais e influência, além de discutir o papel dos homens no enfrentamento às violências. Estiveram no evento gestores, estudantes e profissionais do Direito.
A anfitriã do congresso, Bia Castro, destaca a importância do letramento de gênero no enfrentamento à violência. Segundo ela, o tema já vem sendo incorporado em algumas instituições, como no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que implementou diretrizes sobre o assunto em 2023. No entanto, avalia que ainda há pouca efetividade nas ações práticas.
“Precisamos, com urgência, de políticas públicas que sejam realmente efetivas para que as coisas comecem a mudar cada vez mais”, afirma.
De acordo com ela, o evento reuniu depoimentos, conhecimento e informações que subsidiem a elaboração de uma carta com propostas a ser encaminhada ao Governo do Estado, órgãos de controle e outras instituições, com o objetivo de transformar as discussões em medidas concretas.
Sinais de violência podem ser sutis
Mariana de Siqueira, advogada e palestrante do painel sobre mulheres em espaços de poder, revela que o feminicídio muitas vezes é resultado de uma escalada de violências que poderiam ser interrompidas antes de chegar ao extremo.
“Nem sempre é possível que aconteça, mas nem sempre a primeira agressão vai ser física. Existe a violência verbal, a violência psicológica, os xingamentos, a humilhação, a violência moral, a violência patrimonial, você quebra o celular, rasga a roupa, não entrega o cartão para que essa mulher possa ter uma realidade de consumo digna”, alerta a advogada.
Por isso, reforça a importância de reconhecer os primeiros sinais, muitas vezes passados despercebidos por falta de conhecimento. “Ao primeiro sinal de violência, seja um xingamento, um empurrão ou qualquer outra forma de agressão, a orientação é buscar distância do agressor, denunciar e procurar proteção”, diz. Segundo ela, o ciclo da violência pode evoluir com o tempo e, em muitos casos, terminar em feminicídio consumado ou tentado.
Para denunciar, entre em contato com a Polícia Militar pelo 190, SAMU pelo 192 ou Central de Atendimento à Mulher pelo 180. Em Natal, também é possível procurar o Centro de Referência da Mulher Elizabeth Nasser pelo número 84 3232-4875.







