Cláudio Oliveira
Repórter
Cinco anos depois de um acidente automobilístico que o deixou tetraplégico, o potiguar Uberdan Freire, hoje com 46 anos, voltou a andar. Com auxílio de muletas canadenses, ele dirige, circula pela cidade e recuperou quase que total autonomia perdida quando chegou ao hospital sem conseguir mover nenhuma parte do corpo abaixo do pescoço. A recuperação ocorreu após um longo processo de reabilitação no Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS), unidade do Instituto Santos Dumont (ISD), em Macaíba, na região metropolitana de Natal.
“Cheguei sem a capacidade de movimentar o corpo do pescoço para baixo”, relembra. O acidente provocou lesões graves na coluna cervical, nas vértebras C2, C3 e C4. O impacto emocional foi imediato. “A sensação inicial foi terrível por saber que vai depender totalmente das outras pessoas”, conta. “O desespero tomou conta e, em alguns momentos, a vontade de viver diminuía, pela preocupação de ser um fardo para a família.”
Ainda no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel surgiu a possibilidade de buscar reabilitação especializada. Um enfermeiro informou sobre o instituto, mas o acesso ao tratamento não foi imediato. Entre o acidente, a cirurgia e o início da reabilitação passaram cerca de seis meses. “É um caminho complicado, pois as opções de tratamento são pouco divulgadas. Muitas pessoas que sofrem lesões como a minha desconhecem os recursos disponíveis”, afirma.
Ao chegar ao instituto, Uberdan iniciou um processo de reabilitação conduzido por diferentes áreas da saúde. Pacientes com lesão medular passam por avaliação clínica, psicológica e social antes de iniciar as terapias. Segundo a fisioterapeuta Fabíola Campos, preceptora do instituto, o atendimento começa com uma análise ampla da realidade do paciente. “Quando o paciente chega aqui, ele é recebido por uma equipe multidisciplinar, onde a gente entende não só a questão clínica do paciente, mas todo o contexto social e a rede de apoio”, explica.
Esse acompanhamento é importante porque pessoas com lesão medular frequentemente enfrentam complicações secundárias, como infecções urinárias, feridas por pressão e alterações intestinais. Ao longo do tratamento, são definidas metas de curto, médio e longo prazo que incluem recuperação funcional e reinserção social. “O objetivo final é reinseri-los na sociedade. Alguns voltam a estudar, outros voltam a trabalhar”, diz Fabíola.
Hoje, Uberdan está em fase de alta assistida, quando o paciente já recuperou autonomia, mas segue sendo acompanhado pela equipe. Ele também participa de um grupo de marcha do instituto. “Para quem teve a experiência de ficar limitado aos movimentos da boca e dos olhos, confinado a uma cama, minha vida social hoje pode ser considerada 100%”, afirma.
A evolução dele é referência para outros pacientes em reabilitação, como o jovem Luiz Felipe da Silva, de 22 anos, que sofreu um “efeito de chicote” em um acidente de carro, atingindo as vértebras C3 e C4. A cirurgia demorou quase um mês para acontecer, o que agravou as sequelas. “Perdi boa parte da mobilidade. O lado direito ficou mais comprometido que o esquerdo. No começo da fisioterapia eu vinha acamado, só mexia o pescoço”, relata.
No IIN-ELS, o tratamento incluiu diferentes técnicas e tecnologias, como plataformas vibratórias para controle da espasticidade e sistemas de suporte de peso para treinamento da marcha, como o equipamento ZeroG. “Foi uma evolução bem sofrida, mas muito boa. No começo eu tinha expectativa de pelo menos mexer um braço. Depois fui ficando em pé e já consigo movimentar várias partes.”
Hoje, além da reabilitação, ele encontrou no esporte uma nova perspectiva de vida e começou a praticar bocha paralímpica em uma ação de reinserção social do instituto, e já participa de competições. “Eu diria que nunca tive a visão de que não voltaria a andar, por conta do amparo familiar.”
Ciência aplicada à recuperação
Além do atendimento clínico, o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS) também desenvolve pesquisas em neurociência e neuroengenharia voltadas para melhorar a reabilitação de pacientes com lesões neurológicas. Segundo Edgard Morya, gerente do instituto, o objetivo dos estudos é restaurar ou melhorar funções do sistema nervoso. “A ideia é restaurar funções perdidas ou melhorar funções que estão com alguma alteração”, explica.
Entre as tecnologias utilizadas estão recursos de neuromodulação, interfaces cérebro-máquina e diferentes formas de tecnologia assistiva, que ajudam a estimular a chamada neuroplasticidade — a capacidade do sistema nervoso de reorganizar conexões e recuperar funções. “Você aproveita os recursos que já existem no próprio sistema nervoso para provocar essa neuroplasticidade com a reabilitação”, afirma Morya.
As pesquisas são aplicadas diretamente no tratamento dos pacientes e ajudam a desenvolver novos equipamentos e métodos terapêuticos. Hoje, dezenas de pacientes participam dos programas de reabilitação. “Nós temos mais de 20 pacientes por clínica trabalhando em grupos e de forma individual. Em número de atendimentos, fazemos milhares aqui na sétima região de saúde do Rio Grande do Norte”, diz o gerente.
RN tem tratamento em 12 centros especializados
O Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS) é um dos 12 centros especializados em reabilitação disponíveis para pacientes com tetraplegia no Rio Grande do Norte, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que oferecem acompanhamento multidisciplinar e terapias de reabilitação. O acesso normalmente começa pela atenção primária ou por unidades hospitalares.
“Os pacientes chegam encaminhados pela atenção básica ou por hospitais. A partir daí passam por avaliação e são direcionados para as terapias necessárias”, explica a diretora do Centro Estadual de Reabilitação e Atenção Ambulatorial Especializada (CERAE) de Natal, Célia Melo.
Esses centros estão distribuídos em diferentes regiões do estado e atendem pacientes com diversos tipos de deficiência, incluindo pessoas com lesões medulares que podem evoluir para tetraplegia ou paraplegia. O acompanhamento envolve equipe multiprofissional, com fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e outros especialistas, voltados à recuperação da autonomia e à adaptação às limitações motoras.
O neurocirurgião Ângelo Raimundo da Silva Neto, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e médico do Hospital Universitário Onofre Lopes e do Centro de Reabilitação e Pesquisa Anitta Garibaldi do ISD, explica que o tratamento envolve várias etapas, desde o atendimento inicial após o trauma até a reabilitação prolongada. “Existe todo um cuidado desde o momento do trauma. A cirurgia, quando indicada, busca descomprimir a medula e estabilizar a coluna, e depois o paciente precisa iniciar a reabilitação o mais precocemente possível”, afirma.
Ele destaca que a rapidez no atendimento pode influenciar diretamente nas possibilidades de recuperação funcional. Após a fase aguda, a reabilitação passa a ser fundamental para estimular o sistema nervoso e ampliar o potencial de recuperação do organismo. “Mesmo quando não é possível recuperar totalmente os movimentos, a reabilitação permite ganhos importantes de independência e qualidade de vida”, explica.
A integração entre hospitais, centros especializados e serviços de reabilitação é considerada essencial para ampliar as chances de recuperação dos pacientes. Nesse processo, o trabalho de equipes multidisciplinares e o acesso contínuo às terapias são fatores decisivos para a evolução clínica e funcional de pessoas com lesões medulares.
Polilaminina traz esperança e também cautela
A pesquisa sobre a polilaminina, molécula derivada da placenta humana que está sendo testada para devolver mobilidade a pacientes paraplégicos ou tetraplégicos, tem despertado grande expectativa entre pacientes e familiares, mas especialistas alertam que o tema ainda exige cautela científica. Em nota, a Academia Brasileira de Neurologia pontuou que todos os novos tratamentos devem seguir um protocolo rigoroso de estudos que progride da fase I à III antes de ser aprovado para prescrição médica. “Até o momento, não existem publicações científicas comprovando a sua segurança e efetividade em seres humanos”, informou.
O neurocirurgião Ângelo Raimundo da Silva Neto, médico do Instituto Santos Dumont e do Hospital Universitário Onofre Lopes, avalia que o avanço científico na área de reabilitação é real, mas precisa seguir as etapas normais da pesquisa. “Estamos acompanhando com total respeito o uso da polilaminina no país. É algo que pode trazer grandes respostas para essa comunidade”, afirma. Ao mesmo tempo, o especialista reforça que os pacientes precisam entender que a ciência tem um ritmo próprio. “As evidências são promissoras, mas o rito natural da ciência envolve estudos clínicos em diferentes fases antes de qualquer conclusão definitiva”, explica.
Para ele, mesmo que os resultados ainda precisem ser confirmados, a pesquisa brasileira já representa um avanço importante. “Independentemente do resultado final, trata-se de uma pesquisa nacional de altíssimo nível que abre caminho para novas abordagens no tratamento das lesões medulares”, conclui.
No Rio Grande do Norte, a diretora do Centro Estadual de Reabilitação e Atenção Ambulatorial Especializada (CERAE/RN), Célia Melo, relembra que esse tratamento está em fase inicial de estudo e, por isso, ainda não chegou à rede pública. “Tudo está muito novo, ainda está sendo trabalhado em forma de pesquisa, especialmente porque a proposta envolve aplicação logo após o trauma”, frisa a diretora.
Ela explica que a incorporação de novas terapias no sistema público depende de um processo regulatório. “Tem que passar pela Anvisa e seguir todo um protocolo. Quando isso acontece, o Ministério da Saúde pode colocar essas tecnologias na tabela do SUS”, afirma.








