Fernando Azevêdo
Repórter
Personagens do Carnaval de rua em Natal, blocos populares mantêm viva a tradição e a alma da folia na capital potiguar. São diversas as opções para o público, como o tradicional mela-mela de “Os Cão”, na Redinha; o desfile de “Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens” e do “Suvaco do Careca”, em Ponta Negra; e a mistura de rock com frevo do “Submarino Amarelo”, em Petrópolis. Contudo, preservar o legado da festa exige esforços para arrecadar recursos, dizem os organizadores.
Em Ponta Negra, Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens saíram às ruas pela primeira vez no sábado de Carnaval de 2005. A estreia contou com a participação dos bonecos gigantes que acompanham o bloco e o caracterizam até hoje, cada um representando um de seus personagens.
O projeto surgiu em 2004, por iniciativa do jornalista e cartunista Edmar Viana. “A ideia inicial dele era ‘Poetas, Carecas e Lobisomens’, pensando em Ponta Negra. Poeta representa a poesia de Ponta Negra, a boemia; Carecas é a ideia do Morro do Careca; e o Lobisomem era uma lenda que havia lá no Morro”, explica Hugo Manso, 66, um dos diretores do bloco. As mulheres do grupo contestaram a falta de representatividade feminina – daí entraram as Bruxas. “A bruxa representa as mulheres, a magia, o encanto feminino”, diz Hugo.
O primeiro ano reuniu poucas pessoas, mas logo o bloco se tornou tradicional. Após a morte de Edmar, em 2008, os amigos seguiram a tradição, levando os bonecos representativos da literatura e do folclore pelas ruas de Ponta Negra. O fundador do bloco também ganhou um boneco gigante em sua homenagem.
Em 2026, o bloco chega à “maioridade”. Serão 21 anos de festa, comemorados em alto estilo. Uma das prévias será realizada às 18h neste sábado (31), no Praia Shopping, com show de Laryssa Costa e apresentação dos bonecos. A comemoração de Carnaval será no sábado, 14 de fevereiro, a partir das 16h. A concentração é na Praça de Eventos Cláudio Porpino (Praça dos Gringos).
A preparação está a todo vapor, com pequenos reparos nos bonecos e a confecção da identidade visual para 2026. Segundo Hugo Manso, a necessidade financeira é um destaque. As atividades do grupo são gratuitas para o público e contam com apoio de amigos, além das leis de incentivo, que cobrem parte dos custos. “O bloco é muito amador, desde o início. A gente vem fazendo meio que no voluntarismo”.
Hugo conta que o bloco conseguiu restaurar os bonecos no ano passado porque teve acesso às leis de incentivo da Prefeitura do Natal e do Governo do Estado, via renúncia fiscal de empresas. Nessa modalidade, a empresa destina o que seria pago em impostos para investir em projetos culturais aprovados na lei. “O problema da lei de incentivo é que, via de regra, o dinheiro só chega depois do evento. Isso limita muito a nossa organização”, diz o diretor.
De acordo com ele, a Zona Sul de Natal não tinha Carnaval de rua no começo dos anos 2000. “A grande contribuição do bloco é exatamente ter iniciado o Polo Ponta Negra. Era zero. A novidade [em 2026] é ter 21 anos de Carnaval ininterruptos, porque isso não é fácil. A vida vai mudando, mas a brincadeira permanece”, afirma.
Os Cão
Já Os Cão saíram nas ruas da Redinha pela primeira vez na terça-feira de Carnaval de 1964, tornando-se um dos símbolos da festa em Natal. Melados de lama do manguezal, um grupo de amigos chamou imediatamente a atenção de quem os via. O nome veio de forma espontânea, conta a madrinha do bloco, Ana Paula Nunes, 43 anos. “Por onde eles passavam, as pessoas gritavam: ‘Lá vai os cão’”.
“E, a partir daquele ano, todos os anos, as pessoas foram se reunindo para ir para o mangue na terça-feira de Carnaval”, diz Ana Paula, que conheceu o bloco na adolescência, é foliã há 15 anos e madrinha há 5. “Com o passar do tempo, as pessoas foram incrementando a fantasia”.
Ana Paula relata que, no início, a curtição era desorganizada. Os foliões melavam de lama carros, ônibus e casas nas ruas em que passavam. Foi preciso fazer uma campanha educativa para evitar a situação, o projeto.
Para 2026, a expectativa é reunir muitos foliões e continuar a tradição, diz a madrinha do bloco. Agora, Os Cão aguardam o resultado de um edital de incentivo para arcar com os custos de 35 músicos. Patrimônio imaterial e cultural de Natal desde 2021, ainda assim o bloco luta para conseguir recursos.
“Mesmo a gente tendo um reconhecimento na tradição do Carnaval como um dos maiores blocos daqui de Natal, a gente não consegue as coisas de forma fácil. Temos que participar de edital para conseguir os instrumentos, a banda, a orquestra de frevo e tal. ”, diz Ana Paula. O bloco sai dia 17 de fevereiro, com concentração a partir das 9h, embaixo da Ponte Newton Navarro.
Mais folia em Ponta Negra
Outro bloco de Ponta Negra também está com os preparativos a todo vapor. Desde 2011, o Suvaco do Careca sai às ruas no domingo de Carnaval no bairro. O diretor e criador do bloco, Maurício Cavalcante, conta que ele surgiu diante de “uma falta de Carnaval na cidade de Natal”. Segundo ele, havia apenas o bloco dos Poetas na região, mas depois do sábado a cidade se esvaziava.
A ideia de criar o bloco surgiu em família. Maurício e suas irmãs sentiam falta de um Carnaval como o do Rio de Janeiro, onde nasceram, e decidiram montar o próprio grupo. No RJ, eles brincavam no bloco “Suvaco do Cristo”, daí a inspiração para o nome “Suvaco do Careca”, referindo-se ao Morro do Careca.
Batizado aos pés do morro ao som do frevo, o bloco mantém tradicionalmente o tema de preservar o morro, a praia e o meio ambiente. Em 2026, a concentração é a partir das 15h do dia 15 de fevereiro, na rua ao lado do Praia Shopping.
Os custos para levar o bloco às ruas não são integralmente cobertos nem por meio das leis de incentivo, relata Maurício. “No começo foi bem sofrido para a gente conseguir viabilizar. Saíamos pedindo [ajuda] aos comerciantes para bancar a orquestra, para bancar os bonecos, toda a questão do fazer acontecer”, lembra. Após o quinto ano de folia, o bloco conseguiu acessar editais.
“Essa lei possibilita captar parceiros e patrocinadores, que trocam impostos que eles deveriam pagar para apoiar um projeto cultural aprovado na lei. Começamos a ficar um pouco menos dependentes dessa ajuda. E [a lei] é um caminho que a gente encontrou para todo ano viabilizar nossa folia. Mas em nenhum ano a gente conseguiu captar o recurso total”, afirma. O bloco ainda busca apoio para o Carnaval deste ano.
“Estamos no momento de confecção do estandarte novo, da roupa dos bonecos, toda a preparação para esse desfile do dia 15.” O bloco conta com cerca de 80 colaboradores na rua e três bonecos principais: o carecão, o sheik e uma boneca.
Para Maurício, “os municípios deveriam fortalecer cada as leis de incentivo, que realmente abrem os caminhos para viabilizar a cultura”. O bloco fará uma prévia no dia 7 de fevereiro, às 15h, no Praia Shopping, com banda de frevo e participação da Balanço do Morro.

Rock and roll carnavalesco
Os admiradores dos Beatles têm data marcada para curtir músicas da banda britânica no Carnaval de Natal desde 2018. Nesse ano, Marcos Sá, 74, colocou o bloco Submarino Amarelo pela primeira vez nas ruas de Petrópolis, zona Leste da capital potiguar. O nome faz referência ao álbum “Yellow Submarine” (1969).
A banda faz parte da vida do idealizador do bloco desde a sua infância. “Cresci acompanhando os lançamentos deles. Sempre fui super fã, comprava todos os discos daquela época. E tive várias experiências de projetos com relação aos Beatles”, conta Marcos. “Cresci na época em que eles estavam no auge, estourando, lançando discos. Passava o ano todo na expectativa de qual seria o próximo disco.”
Um de seus projetos foi, durante 30 semanas, realizar o “Beatles Forever”, um encontro toda quarta-feira com convidados em que gravavam CDs com músicas da banda e de covers. Outro projeto, no início dos anos 2000, foi um programa de rádio comandado por ele e dedicado aos Beatles.
Em 2026, a expectativa do Submarino Amarelo é reunir ainda mais apaixonados pelo grupo ao som de um “rock and roll carnavalesco”, com banda caracterizada como os músicos. O bloco tem banda própria e é acompanhado por uma orquestra de frevo.
Em 5 de fevereiro, a banda do bloco Submarino Amarelo faz um ensaio no 294 Bar e Restaurante, às 18h. A taxa de ingresso do evento será usada para “minimizar custos” do grupo. “A cada ano o dinheiro está minguando um pouco”, relata Marcos Sá.
O bloco sai no sábado de Carnaval, na Av. Floriano Peixoto, com concentração a partir das 16h. A ideia de transformar o amor por Beatles em Carnaval foi inspirada em uma experiência que Marcos observou morando no RJ: um bloco de Carnaval no Aterro do Flamengo chamado Sargento Pimenta, referência ao álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967).








