Uma baleia cachalote foi encontrada encalhada na Via Costeira, em Natal, e chamou a atenção de banhistas e moradores que passavam pelo local. O animal, um subadulto da espécie Physeter macrocephalus, media entre 8 e 9 metros. O corpo do cetáceo foi retirado na manhã desta segunda-feira (2), com apoio do Centro de Estudos e Monitoramento Ambiental (CEMAM) e do poder público municipal.
A equipe do CEMAM foi acionada no final da tarde do último domingo (1) e constatou que se tratava de um cachalote subadulto. A carcaça encontrava-se em avançado estado de decomposição, dificultando a coleta de informações no primeiro atendimento.
Segundo a bióloga do CEMAM, Raquel Marinho, registros de encalhes de grandes cetáceos, incluindo cachalotes, são esporádicos no litoral do Rio Grande do Norte e do Nordeste brasileiro. “Esses eventos são considerados raros e, até o momento, não apresentam um padrão específico associado exclusivamente à espécie”, explicou.
De acordo com Raquel, durante o período do verão há um aumento no número de encalhes de animais marinhos no litoral do RN, o que pode estar relacionado a fatores como maior intensidade de ventos, correntes marítimas e aumento das atividades humanas na costa.
Durante a avaliação inicial, foram observadas diversas marcas compatíveis com mordidas de tubarão, possivelmente ocorridas após a morte do animal. Devido à decomposição, não foi possível determinar a causa do óbito.
Por conta do horário do acionamento, a equipe realizou inicialmente apenas uma verificação da ocorrência, levantando informações e planejando a logística necessária para o atendimento completo, que ocorreu na manhã seguinte. Os profissionais retornaram por volta das 7h30 e deram início ao protocolo de atendimento, realizando todas as coletas possíveis de acordo com o estado da carcaça.
Os cachalotes são animais oceânicos que habitam principalmente águas profundas, longe da zona costeira, onde realizam mergulhos extensos em busca de alimento. “Mesmo sendo uma espécie de hábito oceânico, eles podem ser impactados por atividades humanas, especialmente pelo aumento do tráfego de embarcações, ruído subaquático, poluição marinha e interações com artes de pesca”, alertou a bióloga.
Outros fatores humanos também representam riscos à saúde da espécie, como resíduos sólidos e contaminantes presentes nos oceanos. “Embora nem sempre seja possível estabelecer uma relação direta entre essas atividades e os casos de encalhe, elas configuram pressões adicionais que podem afetar a sobrevivência da espécie ao longo do tempo”, concluiu Raquel.
‘Moby Dick’
A cachalote encontrada na Via Costeira pertence à mesma espécie do lendário personagem retratado no livro Moby Dick, de Herman Melville. É o maior dos cetáceos com dentes e uma das espécies mais emblemáticas dos oceanos.
Pode atingir mais de 18 metros na fase adulta e realizar mergulhos profundos em busca de alimento, como lulas gigantes. “Exercem um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas marinhos, especialmente na regulação das cadeias alimentares, já que se alimentam principalmente de lulas e outros organismos de águas profundas”, sublinha a especialista Raquel Marinho.
A redução ou ausência desses animais pode provocar desequilíbrios ecológicos de longo prazo, afetando a dinâmica de espécies e a saúde dos oceanos, segundo ela.
Segundo a bióloga, as cachalotes se destacam pela alta complexidade social e pelos sofisticados sistemas de comunicação. “Eles utilizam cliques sonoros muito potentes para ecolocalização, permitindo mergulhos profundos e caça eficiente em grandes profundidades.”
Além disso, apresentam comportamento social estruturado, com forte vínculo entre indivíduos e estratégias cooperativas de proteção e aprendizado. Essa sensibilidade às interações do ambiente torna a espécie particularmente vulnerável a ruídos humanos. “O ruído gerado por embarcações pode interferir na comunicação e na ecolocalização desses cetáceos”, explicou.








