A invasão da Rússia à Ucrânia completa nesta terça-feira (24) quatro anos. Nos últimos meses, os Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, intensificaram os esforços para mediar um acordo que encerre o conflito em curso. As negociações, no entanto, esbarram em exigências territoriais impostas pelo Kremlin, especialmente sobre regiões do leste ucraniano que seguem sob controle de Kiev.
Negociações recentes realizadas no Oriente Médio e na Suíça reuniram delegações russas e ucranianas sob mediação americana. Os encontros avançaram em pontos técnicos, como questões humanitárias, troca de prisioneiros e mecanismos de monitoramento de um eventual cessar-fogo. No entanto, os temas centrais para fechar o acordo – território e garantias de segurança – continuam sem consenso.
Washington estabeleceu a meta de buscar um entendimento entre Moscou e Kiev até a metade deste ano, mas diplomatas envolvidos nas conversas avaliaram à imprensa internacional que o impasse permanece significativo, o que dificulta a celebração de um acordo nesse prazo.
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O papel das “cidades-fortalezas” na luta contra Moscou
No centro das negociações em curso entre Ucrânia e Rússia, mediadas pelos Estados Unidos, está o destino do Donbas, região estratégica que reúne as províncias de Donetsk e Luhansk.
Atualmente, Luhansk encontra-se praticamente sob controle total das forças russas. Já Donetsk permanece parcialmente sob domínio de Kiev, sobretudo graças à resistência ucraniana nas chamadas “cidades-fortalezas”: Sloviansk, Kramatorsk, Kostiantynivka e, até recentemente, Pokrovsk.
Esses locais formam o núcleo da linha defensiva ucraniana no leste desde o início da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022. Moscou afirma já ter consolidado o controle de Pokrovsk, enquanto Kiev sustenta que a cidade permanece parcialmente contestada.
Segundo o coronel da reserva do Exército Brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em Ciência Política Internacional, essas cidades são mais do que apenas símbolos de resistência, são pilares do atual esquema defensivo da Ucrânia no leste do país.
Coutinho explicou em entrevista à Gazeta do Povo que Slovyansk, Kramatorsk e Kostiantynivka, que atualmente compõem as cidades-fortalezas, começaram a ser fortificadas ainda durante a Guerra do Donbas, entre 2014 e 2022, quando as forças do governo ucraniano construíram nessas cidades um amplo sistema de trincheiras, fossos anticarro, bunkers e campos minados para impedir o avanço de forças separatistas apoiadas por Moscou.
O analista destacou que o objetivo territorial russo no conflito envolve a consolidação do domínio sobre cinco províncias estratégicas: a Crimeia, já sob controle de Moscou desde 2014; Luhansk, praticamente conquistada; Donetsk; Zaporizhzhya; e Kherson, onde o controle russo ainda é parcial e segue em disputa com a Ucrânia.
Em Kherson e Zaporizhzhya, o Rio Dnipro atua como obstáculo natural à progressão militar russa. Mas em Donetsk a contenção do avanço de Moscou depende quase exclusivamente das fortificações erguidas pela engenharia ucraniana nessas cidades-fortalezas, o que as transforma no principal ponto de bloqueio ao cumprimento integral de um dos principais objetivos territoriais do Kremlin.
“Podemos considerar que as mais bem defendidas cidades do esquema defensivo ucraniano estão localizadas no Oblast [província] de Donetsk, onde não há barreiras naturais relevantes, mas apenas as construídas pela engenharia militar, como trincheiras, fossos anticarro e campos minados”, afirma Coutinho.
O analista explicou também que essas cidades-fortalezas concentram importantes eixos de transporte, o que amplia a relevância estratégica e logística delas.
A eventual conquista de Slovyansk, Kramatorsk e Kostiantynivka por forças russas no conflito, segundo avaliação do analista, caracterizaria o domínio completo da província Donetsk, fazendo com que a Rússia alcançasse um de seus principais objetivos de guerra por meio da força, pressionando Kiev nas negociações de paz.
“A conquista pelos russos dessas localidades caracterizaria a conquista total do próprio Oblast de Donetsk, que é uma das principais demandas territoriais russas. Lembro que essa demanda vem inclusive sendo discutida nas negociações de paz em pleno andamento. Os russos exigem que os ucranianos deixem estas cidades e as áreas de suas municipalidades para que um cessar-fogo possa ser estabelecido, o que a Ucrânia não concorda”, disse ele.
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Resistência urbana
Enquanto as cidades-fortalezas permanecerem sob controle de Kiev, a Ucrânia conseguirá prolongar sua capacidade de resistência, avalia Coutinho. “É confiando nisso que se baseia a estratégia de atrição ucraniana”, complementou.
No contexto militar, guerra de atrição é uma estratégia que busca desgastar o inimigo de forma contínua. Coutinho lembra que cada avanço russo no terreno ucraniano eleva o custo de uma eventual paz negociada, pois amplia as exigências de Moscou na mesa de negociações.
O analista observa que, além das cidades-fortalezas localizadas em Donetsk, duas outras merecem atenção no atual cenário de conflito: Kupyansk, localizada na província de Kharkiv, já em fase de combate urbano, e Zaporizhzhya, capital da província de mesmo nome.
No caso de Kupyansk, o analista afirma que a região de Kharkiv se tornou alvo do interesse russo tanto para ampliar seu estoque de moedas de troca territoriais quanto para estabelecer uma zona de amortecimento na faixa de fronteira terrestre entre os dois países.
Já em relação a Zaporizhzhya, o analista destaca que a capital regional não recebeu o mesmo nível de fortificação que o cinturão defensivo de Donetsk, em parte por ter permanecido, inicialmente, mais distante da linha de frente. Contudo, após o avanço russo sobre Pokrovsk e diante da dificuldade de romper as defesas de Sloviansk e Kramatorsk, Moscou teria redirecionado esforços para esse setor. Segundo Coutinho, a frente de Zaporizhzhya passou a figurar entre as mais ativas em número de combates neste ano.
O papel dessas cidades nas negociações de paz – e o que está em jogo
Para o estrategista internacional Cezar Roedel, as cidades-fortalezas do Donbas representam hoje o ponto mais sensível das negociações entre Rússia e Ucrânia porque concentram, ao mesmo tempo, peso militar, impacto político e valor simbólico.
No plano militar, explica o analista, essas cidades impedem que Moscou declare o controle pleno do Donbas ou avance sobre todo o país. No campo político, ceder essas cidades significaria reconhecer, ainda que indiretamente, que a invasão russa produziu ganhos concretos para o Kremlin.
No campo simbólico, essas cidades podem definir, de certa forma, quem poderá dizer que “venceu” o conflito em curso, embora o analista lembre que a guerra na Ucrânia é uma “guerra de atrito, que na doutrina militar é uma guerra altamente custosa, sem vencedor, sem perdedor”.
Se o controle dessas regiões continuar com Kiev, reforça a imagem de resistência e de que a Rússia não conseguiu cumprir totalmente o seu objetivo no Donbas. Se forem cedidas ou tomadas por Moscou, passam a funcionar como prova concreta, para o público interno russo, de que a meta territorial foi alcançada.
“Ceder uma dessas cidades traduz o seguinte: Kiev admitindo que a guerra recompensou a agressão de certa forma”, explica Roedel.
A cessão de territórios em disputa na Ucrânia, contudo, é algo que a Casa Branca, mediadora das discussões de paz em curso, não descarta como parte de um eventual acordo de paz. Na visão de Roedel, essa disposição americana de admitir concessões territoriais coloca Kiev sob pressão direta, porque transforma justamente o ponto mais sensível da guerra em possível moeda de troca.
Segundo Roedel, se a pressão da Casa Branca por um acordo se intensificar e se a resistência do presidente Volodymyr Zelensky a discutir concessões de territórios perder força, o governo ucraniano poderá ficar diante de duas saídas difíceis.
A primeira seria reconhecer oficialmente, em acordo, as perdas territoriais, formalizando juridicamente a cessão das áreas ocupadas pelo Kremlin. A segunda consistiria em congelar a atual linha de frente sem reconhecimento jurídico, adiando a definição sobre o status dos territórios em disputa.
“Esse segundo formato cabe mais num pacote com garantias ocidentais fortes”, avalia Roedel. “Mas essas garantias ainda não estão claras”, lembrou.
Para o analista, incluir no acordo de paz o reconhecimento formal das áreas ocupadas pela Rússia enviaria um sinal preocupante à comunidade internacional.
“Isso criaria um precedente tóxico: a mensagem de que fronteiras mudam pela força”, disse Roedel. Segundo ele, isso colide diretamente com o princípio de não aquisição territorial pela força, um dos pilares do direito internacional público.
O analista citou o caso de Taiwan e da China como possível desdobramento indireto de um acordo nesses termos. A concessão integral do Donbas à Rússia poderia ser interpretada por Pequim como sinal de que anexações pelo uso da força têm custo político administrável.








