Bruna Torres
Repórter
Sob a lente das Ciências da Religião, a Páscoa revela-se um mosaico de interpretações múltiplas. No âmbito acadêmico, na liturgia do padre, no fervor evangélico, na expressão ancestral da Quimbanda e da Jurema Sagrada, o conceito de “passagem” prova que, no Brasil, o sagrado é uma construção plural, pulsante e que permeia inúmeras interpretações.
Para Rodson Ricardo, professor do curso de Ciências da Religião na UERN, a Ressurreição sob a ótica da Ciência da Religião traz um rigor científico que se debruça sobre o fenômeno religioso. “Enquanto a Teologia fala a partir da fé, a Ciência da Religião fala a partir da observação: somos intérpretes do sagrado em sua manifestação humana”, contextualiza.
Conforme o acadêmico explica, a ideia de ressurreição não surge no vácuo. Ela é um rebento histórico do período pós-exílio na Babilônia (aprox. 586-538 a.C.), quando o judaísmo floresce em contato com o Zoroastrismo persa. É nesse solo que brotam conceitos como o de Messias, o combate entre anjos e demônios e a vitória final sobre a morte, como testemunha o Livro de Daniel.
“A ressurreição de Cristo, portanto, deve ser compreendida em sua tripla dimensão: é um evento que a história registra como crença fundante, um dogma que a teologia sustenta e um símbolo potente que a psicologia reconhece como a recusa humana em aceitar o “fim” absoluto”, reitera.
Rodson Ricardo salienta que a transição para a Páscoa cristã é a metamorfose da liberdade. Se para o povo hebreu a Páscoa era a travessia física do Mar Vermelho, a saída da escravidão no Egito rumo à Terra Prometida, para o cristianismo primitivo se torna a travessia metafísica. “A passagem da escravidão do pecado para a plenitude da vida eterna. Teologicamente, a ressurreição é a afirmação de que a pessoa, em sua integralidade de corpo e alma, possui uma dignidade que a morte não pode corromper”, destaca.
O especialista destaca ainda que, embora a celebração da Páscoa sofra o desgaste da secularização, onde o coelho de chocolate e o consumo, muitas vezes, ofuscam o “mistério”, a ressurreição resiste como um arquétipo de renovação. Em uma sociedade cada vez mais plural, ela se manifesta na resiliência de quem enfrenta lutos, tragédias e cuidados paliativos. “Somos seres simbólicos, precisamos de sentido: inclusive, para a morte.”
No segmento, Rodson Ricardo destaca que mesmo em um mundo técnico, o Brasil continua sendo um país de “crentes”. Com mais de 80% da população identificada com o cristianismo e a maioria absoluta acreditando em uma vida pós-morte, entender a ressurreição é entender a gramática emocional do brasileiro. Rodson reitera a importância de analisar este fenômeno e compreendê-lo como essencial para todas as áreas de atuação profissional.
“A religião não é apenas o que se crê no altar, mas o que move o braço de quem constrói a sociedade. Por fim, como bem pontua Mircea Eliade, a religião não é apenas uma herança do passado, mas um mapa para o futuro; estudar a Ressurreição hoje é, acima de tudo, estudar a nossa eterna tentativa de vencer o silêncio da morte com o grito da esperança”, finaliza.
Mundo católico
No entanto, para a Igreja Católica, conforme o Padre Assis Melo, chanceler da Arquidiocese de Natal, aponta, a Ressurreição de Cristo é a confirmação de que Ele absolutamente é o Filho de Deus e de que a sua missão de salvação foi cumprida. “A ressurreição representa, com certeza, a vitória sobre o pecado e a morte, do perdão sobre o ódio, abrindo principalmente para a humanidade o caminho da vida eterna”, disse. O chanceler ressalta a importância da Ressurreição como um dos momentos mais marcantes da fé cristã. “Sem a ressurreição, a mensagem de Cristo não teria plena confirmação. Seria apenas algo assim, um livro escrito pela metade, um texto sem finalização, uma esperança que não dá sentido a nada. Ou seja, a Ressurreição é mostrar para nós que a morte não é o fim, mas é uma passagem para uma nova vida”, aponta.
A Semana Santa é interpretada como a Semana Maior, um período que os religiosos utilizam para a melhor compreensão de sua fé, sendo também nomeada assim pelos grandes acontecimentos da fé cristã, como a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo, um ponto culminante de toda a liturgia.
“É uma pausa para pensar melhor naquilo que nos move. A fé que nos leva a alimentar a esperança, que nos ajuda a entender a terceira virtude teologal, a mais importante, o amor. A Deus, ao próximo, a nós mesmos”, enfatiza. Segundo o padre, cada dia tem o seu simbolismo, com gestos que mostram a dimensão do serviço, como o Lava-Pés, um dia de silêncio, reflexão, coragem e, por fim, o Domingo de Páscoa como a vitória da vida e da luz sobre a morte e sobre as trevas.
“Os fiéis são convidados à oração, a participar intensamente das celebrações. A liturgia também é muito intensa. Por isso que tem todo esse tempo de reflexão, de pensarmos melhor, trabalharmos melhor, rezar com mais qualidade. E aí como fruto podemos realmente sair da Semana Santa com uma pessoa mais transformada, mais renovada no Senhor”, ressalta o chanceler.
Segundo o Pe. Assis Melo, a Páscoa traz uma mensagem universal da ressurreição, até mesmo para quem não é religioso. “De amor, de renovação, de superação, de conversão, de esperança e uma vida nova pautada completamente pelos valores do Evangelho. Naquilo que é o testemunho maior de Jesus, como reza o canto durante toda a Quaresma. ‘Eis que eu vos dou um novo mandamento, amai-vos uns aos outros como eu vos amei’. E o amor está acima de qualquer religião, ele é maior do que as paredes das nossas igrejas, ele é maior do que tudo aquilo que nós acreditamos”.
Transformação e mudança
Na perspectiva da vertente protestante, Hilton Andrade, pastor da Assembleia de Deus, aponta que a Páscoa é uma das mais antigas celebrações dos cristãos, tendo como representação a ressurreição de Cristo e uma esperança de transformação e mudança. “A Páscoa é esperança. Por mais que nós passemos por lutas e dificuldades, por mais que tenhamos limitações físicas, nós teremos um corpo transformado e iremos nos encontrar com o nosso Deus. Nossa esperança é sua vinda e sua ressurreição nos prova que ele é o Filho de Deus e veio para se sacrificar por cada um de nós”, declara.
Na visão de Hilton Andrade, o período pascal é um momento em que os cristãos costumam se resignar após a “festa da carne”, o carnaval, com orações, sacrifícios pessoais e abstenção de prazeres, como, por exemplo, não ingerir determinadas bebidas, tampouco consumir doces e, em alguns casos, carne vermelha.
“O período pascal significa um período de renovação da esperança, da fé, da confiança em Deus e esse é um dos períodos em que a gente busca novos propósitos, novos motivos, afinal, nós vamos recomeçar. A Páscoa se deu na cidade do povo do Egito. No Antigo Testamento, significa ‘passagem’, ela celebra a libertação do povo de um período de escravidão. Jesus vem trazer um novo entendimento, onde vamos estar libertos das tentações, dos desejos da carne e vamos nos tornar espírito como Deus é espírito”, acrescenta.

Saberes cruzados e ancestrais
Em outras expressões culturais, religiosas e ancestrais, a Jurema Sagrada e a Quimbanda possuem percepções diferentes sobre a Páscoa cristã. A Jurema Sagrada é uma religião afro-indígena com raízes profundas no Nordeste do Brasil, especialmente Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Já a Quimbanda possui fortes raízes na cultura afro-brasileira; o culto surge no Brasil derivado dos candomblés a partir da necessidade de cultuar os espíritos ancestrais.
Conforme aponta a sacerdotisa de Jurema Sagrada, Hosana Maria, para os juremeiros, o período da Semana Santa e suas particularidades não estão interligados diretamente à Jurema Sagrada, porém no Sábado de Aleluia há um ‘toque’, ou seja, um culto sagrado para o Mestre Zé da Virada, uma entidade espiritual cultuada na Jurema Sagrada.
“Dentro da Jurema, quando os padres que começaram a catequização dos indígenas, houve a miscigenação, a mistura onde colocaram a reza da Igreja Católica com a Jurema Sagrada. O Domingo de Páscoa é para descansar, beber e aproveitar, é um dia comum. Sábado de Aleluia, no entanto, tem um ‘toque’, pois também significa ‘alegria’, em função do Mestre Zé da Virada, pois para ele significava alegria, sendo em vida também um devoto de Santa Rita e de Nossa Senhora da Apresentação, em respeito e amor”, declara.
Em contrapartida, Samuel Leandro, quimbandeiro e professor de dança, alega que em seu entendimento a Páscoa é baseada em uma festividade pagã, o que não gera impacto direto na prática da Quimbanda, pois não envolve as divindades cultuadas na Quimbanda. “No nosso culto não existe uma divindade salvadora, entendemos que somos responsáveis por nossas ações e que nossos ancestrais nos guiarão no nosso caminhar na terra, nos orientando, guiando e ensinando”, informa.
Ele afirma desconhecer qualquer simbolismo pascal dentro da Quimbanda, além do culto aos mortos que guiarão seus caminhos. “Desconheço qualquer festejo ou rito sagrado realizado nesse período. Porém, algumas festividades abrem as possibilidades de realizações ritualísticas por envolver ritos antigos e resistentes ao longo do tempo”, finaliza.








