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17h00

Ananda Miranda
Repórter
Um ano após a proibição de celulares nas escolas, professores e alunos já percebem mudanças no cotidiano: mais foco nas aulas, melhora no desempenho e maior participação dos estudantes. Nos intervalos, a cena também é outra, com mais conversas, jogos e interação entre colegas.
Os celulares, antes usados para fotografar o quadro e substituir o caderno, agora dão lugar às anotações feitas à mão durante as aulas. Para educadores, a mudança reflete um novo cenário de atenção em sala. “A atenção é um recurso escasso e disputar a atenção com os celulares é algo desafiador. E quando a lei chega para somar o que a escola acredita, ela traz uma possibilidade, ela favorece com que as crianças e os adolescentes tenham sua atenção voltada para a convivência”, afirma Cristine Rosado, diretora pedagógica do CEI Romualdo Galvão.
O CEI não se coloca contra a tecnologia, mas defende que ela seja utilizada de forma planejada e com objetivos claros de aprendizagem. “O que traz a vantagem da legislação é que a tecnologia seja utilizada quando ela é tecnologia educacional, quando ela traz vantagens para o aluno, e não quando ela tira o aluno da convivência, da brincadeira”, alerta a diretora pedagógica Cristine Rosado.
No início, alunos tentavam esconder os celulares ou mantê-los consigo, demonstrando a dificuldade de adaptação à nova rotina. “Eles tentavam esconder o celular, guardar. Porque eles pensavam que não iam sobreviver sem”, brinca Rosado. Com o tempo, no entanto, a percepção é de que a situação se estabilizou e os estudantes passaram a se adaptar melhor às regras.


A professora Suênia Medeiros, que leciona Filosofia e Sociologia no CEI Romualdo Galvão, explica que os alunos estão mais questionadores e que já é possível perceber mudanças na dinâmica em sala de aula. “A gente percebe uma maior interação entre eles em sala de aula, uma conexão mesmo com a turma e com o professor”, afirma.
Segundo ela, com a restrição do uso de celulares, os estudantes passaram a direcionar mais a atenção para as relações interpessoais, em vez de focarem em dispositivos eletrônicos e no entretenimento das telas. “Você tem um aluno agora mais focado, mais interessado, mais atento. As aulas, o conteúdo vêm fluindo bem melhor. O tempo de aula é mais proveitoso”, pontua a professora.
A mudança na rotina escolar, após a proibição do uso de celulares, já é percebida no cotidiano dos estudantes tanto dentro quanto fora da sala de aula. Segundo a orientadora educacional do Ensino Médio do Marista, Ana Caroline Ferreira, práticas digitais deram lugar a dinâmicas mais tradicionais. “Antes eles estavam se reunindo para jogar no celular. E agora eles se envolvem mais com a sinuca, totó e conversar”, relata.
A orientadora aponta que, em vez de grupos digitais e mensagens instantâneas, surgiram novas formas de interação mais simples e presenciais. “Agora eles fazem recadinho, escrevem papel quando querem espalhar alguma notícia”, explica a educadora.
Segundo a orientadora, essas iniciativas ajudaram a integrar diferentes setores da escola e a fortalecer a convivência entre os estudantes, que passaram a ocupar mais os espaços coletivos e a vivenciar uma rotina mais ativa e integrada. “Foram criados outros projetos aqui, como, por exemplo, eles têm uma Copa Recreio, que vai começar agora, que foi idealização do Grêmio. Então, eles têm partidas na hora do intervalo. O setor de arte incentivou a rádio musical, a criação da rádio”, conta a orientadora Ana Caroline.
Dependência da tecnologia
Para Raphael Bender, professor de biologia no Centro Estadual de Educação Profissional Professora Lourdinha Guerra (CEEP), compreender as demandas da sociedade atual é fundamental para que as escolas consigam atuar de forma mais eficaz. “Educar para o uso consciente da tecnologia é hoje, sem dúvida, uma responsabilidade formativa da escola. Eu vejo essa medida como mais do que uma forma disciplinar”, destaca.
O professor também chama atenção para o papel que o celular passou a ocupar na vida dos jovens, indo além de uma simples ferramenta de comunicação. “O objetivo não é demonizar a tecnologia, mas ensinar o estudante a reconhecer quando ela favorece a aprendizagem e quando está prejudicando o desempenho dele”, explica.
Para Bender, a dinâmica em sala de aula já apresenta mudanças perceptíveis, com alunos mais engajados: “a aula começa melhor, as atividades se organizam mais rapidamente, a interação pedagógica, de certa forma, ganha mais intensidade”.
A diretora pedagógica da Luminova, Angélica Leal, considera que a relação dos jovens com o celular já havia atingido um nível de dependência que exigia uma intervenção mais estruturada. “Para se ter esse desmame, essa ruptura do equipamento eletrônico, precisava mesmo de uma lei para nos ajudar”, afirma.
Ela relata que, no início, houve resistência por parte dos alunos, que viam o aparelho como algo indispensável no dia a dia. Diante desse cenário, a escola optou por iniciar o processo com uma abordagem educativa, buscando conscientizar os estudantes de que a medida não se tratava apenas de uma imposição.
O contexto da pandemia também é apontado como um fator determinante para esse comportamento. “Nós pegamos alunos produto da pandemia, saídos de um período em que estavam limitados ao uso das tecnologias, com muita tela, porque as aulas foram todas remotas”, explica.
Angélica Leal também considera que a distração causada pelo aparelho é comum no dia a dia. “Até nós, adultos, quando estamos aqui conversando, o celular fica ali e a gente já para para dar uma olhadinha”, afirma.
De acordo com ela, essa lógica se repetia em sala de aula, quando os alunos mantinham os aparelhos por perto, muitas vezes sob a justificativa de uso de material digital.
Com a restrição, a percepção é de retomada de práticas pedagógicas que haviam perdido espaço com o avanço das tecnologias digitais. “Nós saímos daquela coisa do fomento da era digital, onde a gamificação, laboratórios de robótica estavam em alta, e agora tivemos que retomar algumas práticas que acabaram ficando esquecidas, com materiais mais palpáveis, como cartolina, como melhorar a questão da leitura escrita em livros”, informa.
Impacto no desempenho
O uso excessivo de celulares pode impactar diretamente o desempenho escolar e o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. Segundo a psicóloga Thaymara Felix, o contato constante com telas interfere na capacidade de concentração e na forma como os alunos lidam com o aprendizado.
A explicação, segundo a especialista, está no funcionamento do próprio cérebro diante dos estímulos digitais. Ela afirma que o celular oferece recompensas rápidas e constantes, como notificações e conteúdos curtos, o que acaba competindo com atividades que exigem esforço contínuo, como estudar.
“Nosso cérebro é sensível a estímulos imediatos, e o celular oferece recompensas rápidas (mensagens, vídeos curtos, notificações), ativando constantemente o sistema de recompensa do cérebro. Isso faz com que tarefas escolares, que exigem esforço e têm retorno mais lento, pareçam menos interessantes”, explica.
Como consequência, há redução na retenção de conteúdo, aumento do tempo para compreender atividades e uma sensação mais rápida de cansaço mental.
Além dos impactos acadêmicos, o uso excessivo também afeta o comportamento e a saúde emocional dos estudantes. Thaymara destaca que o celular pode funcionar como uma forma de regulação emocional, sendo utilizado para lidar com o tédio, a ansiedade e até a sensação de solidão. Esse padrão tende a criar um ciclo de dependência.
Alunos percebem melhora nas notas
A adaptação à nova regra não foi imediata para os estudantes, que estavam acostumados a utilizar o celular inclusive nos momentos de intervalo.
Segundo Alicia Ferreira, aluna da 1ª série do CEI Romualdo Galvão, o impacto inicial foi significativo. “No começo foi bem um baque para a gente, a gente não esperava, mas eu acho que a falta do celular me ajudou bastante na parte do meu foco”, destaca.
Sem a distração do aparelho, os alunos passaram a buscar novas formas de estudo, como resolver mais exercícios após concluir as tarefas propostas. “Eu percebi que as minhas notas melhoraram, principalmente na redação. Isso é bom porque antes a gente tinha como ter os repertórios pesquisando aí; como a gente não tem mais o celular, tem que se forçar a pensar no repertório. No Enem não vai ter celular e em nenhum outro vestibular”, revela a aluna.
Lívia Castilhos, aluna da 2ª série da Luminova, também sentiu as notas melhorando. Segundo ela, agora os alunos pesquisam mais em livros, o que ajuda no aprendizado: “Eu percebo muito, ao meu redor, que as pessoas prestam mais atenção na aula. Tem vários alunos que estão se interessando também na questão de desenvolver pesquisas científicas”, conta a aluna.








