Ananda Miranda
Repórter
No Dia Internacional da Mulher, histórias de coragem e reinvenção ganham destaque. Em momentos da vida em que muitos optariam por manter a estabilidade profissional, mulheres decidiram mudar de rota e apostar em novos projetos pessoais.
O processo de produção das peças em cerâmica exige paciência e envolve muitas incertezas. A artesã Danielle Montoril explica que as cores vistas durante a pintura não correspondem exatamente ao resultado final após a queima. “Essa argila, quando eu estou manuseando, ela é cinza. Quando ela sai da primeira queima, ela sai num tom rosado e quando ela sai da segunda queima, ela vem para outro tom”, relata.
Segundo Danielle, o momento de abrir o forno e ver o resultado é sempre especial, já que o efeito final pode superar o que foi imaginado inicialmente. “Quando sai do forno e ela sai assim até melhor do que eu idealizei, é uma felicidade imensurável”, afirma.
O processo de produção de cerâmica, realizado semanalmente pela artista, muito se parece com sua trajetória profissional. Aos 46 anos, quando muitos já estão consolidados em suas carreiras, ela decidiu se reinventar. Formada em Direito e Arquitetura, deixou para trás a rotina dos escritórios e dos projetos técnicos para se aventurar em um caminho mais incerto: o do artesanato.
Aos 11 anos, Danielle fez um curso de pintura a óleo sobre tela e se apaixonou pela arte. Quando chegou o momento de escolher o curso para o vestibular, optou por Arquitetura, acreditando que estaria mais próxima desse universo criativo. “Eu achava que era o que era mais próximo daquilo que eu gostava, né? Que é a arte. Só que eu não encontrei a arte na arquitetura”, conta, afirmando ser um curso teórico.
Depois de formada, ela chegou a trabalhar em lojas do setor imobiliário, mas seguiu em busca de um caminho que a conectasse novamente com a expressão artística. “Aquilo não estava sendo suficiente pra mim e por contingências diversas da vida, eu fui fazer o curso de Direito. E aí, depois do curso de Direito, eu fiquei estudando por cinco anos para concurso”, disse a artista.
Em 2019, o então amigo — e hoje esposo — Silvano Quatza percebeu a inquietação de Danielle e tentou ajudá-la a encontrar um novo caminho. “Eu estava conversando com ele, angustiada, e ele disse: ‘Pense numa coisa que você gosta de fazer naturalmente’”, relembra. A pergunta acabou provocando uma reflexão que, mais tarde, ajudaria Danielle a redescobrir sua ligação com a arte.
Ela sempre teve afinidade com atividades manuais, o que a levou a dar os primeiros passos no artesanato em 2019, ao lado de uma amiga. Com a chegada da pandemia, as atividades ficaram suspensas, mas ela aproveitou o período para aprender novas técnicas e iniciou um curso de lettering — arte de desenhar letras combinadas com mensagens — passando a produzir quadros nesse estilo.
Quando decidiu seguir o caminho da arte, ela também enfrentou dúvidas e questionamentos de quem estava ao redor. Para muitas pessoas, parecia difícil acreditar que alguém pudesse viver apenas da produção artística. “As pessoas meio que não acreditam muito no valor da arte em si. Quem não é artista não entende que o artista precisa da arte para viver”, relembra.
Durante o processo de mudança de carreira, Danielle também enfrentou momentos de medo e insegurança. A decisão de abandonar caminhos profissionais mais estáveis para apostar na arte trouxe dúvidas, mas o apoio da família foi fundamental para seguir em frente.
No fim de 2022, após se casar com Silvano, o casal montou o ateliê Arte Mais, onde Danielle começou a ministrar aulas de lettering e oficinas de aquarela e pintura orgânica, além de produzir intervenções artísticas em paredes.
A aproximação com a cerâmica veio mais recentemente. Em abril de 2025, ela iniciou aulas e passou a explorar a produção de peças em cerâmica artesanal de alta temperatura.
“Ser artista não é fácil, realmente a gente precisa se dedicar bastante. Bastante é bastante mesmo. Tem dias, assim, que eu vou dormir tardão e acordo bem cedo. Mas é um prazer tão grande de você estar fazendo o que ama”, destaca Danielle Montoril.
Ela conta ainda que, ao longo dessa trajetória na cerâmica, encontrou apoio em instituições como o Sebrae/RN, que contribuíram para o desenvolvimento do seu trabalho e abriram novas oportunidades, como a participação na 31ª Feira Internacional de Artesanato (Fiart).
Cerâmicas, quadros a giz, paredes coloridas e frases produzidas em lettering compõem o cenário que os alunos de artesanato encontram ao entrar no ateliê de Danielle.
O espaço revela não apenas as diferentes técnicas que ela ensina, mas também o ritmo frenético da mente da artista: “Eu vejo uma arte e eu penso, eu consigo fazer isso aqui. E aí, quando eu tento e realmente consigo, isso é, digamos, um ponto alto para mim”, explica.
Para Danielle, arte é expressar emoções: “A gente como mulher enfrenta muitos desafios. Nós somos, às vezes, caladas, desacreditadas. E a arte, ela é uma forma da gente conseguir se expressar. Uma forma de mostrar, assim, eu estou aqui, eu posso, eu consigo”, descreve.
Um novo começo em uma startup
Assim como a artista, que decidiu mudar de carreira para seguir o caminho da arte, outra história de reinvenção também mostra que nunca é tarde para começar algo novo. Após anos de dedicação ao serviço público, Lieda Amaral, auditora fiscal federal aposentada, resolveu transformar a experiência acumulada ao longo da vida em um novo projeto profissional e abrir uma startup.

A BSSP Consulting funciona como uma plataforma educacional voltada principalmente para profissionais das áreas contábil e tributária. Por meio da startup, são oferecidos cursos de pós-graduação e de extensão, além de capacitações específicas para empresas. BSSP significa Boa Sorte, Sabedoria e Prosperidade.
Interessada pela área educacional, ela relata que o período de isolamento durante a pandemia despertou maior curiosidade pelos temas ligados à tecnologia. “Eu estava bastante inquieta com o que eu poderia dar continuidade”, afirma.
Durante o desenvolvimento do projeto, ela e um amigo perceberam que precisariam de suporte tecnológico para estruturar uma plataforma educacional.
Sem entender de tecnologia, Lieda voltou a estudar: “Eu tinha o conhecimento das metodologias, mas eu não tinha da tecnologia, ou o conhecimento necessário. Eu não tinha conhecimento dessas tecnologias educacionais que nós poderíamos utilizar”, destaca.
Convivendo diariamente com jovens empreendedores em cursos de especialização, ela afirma que precisou se atualizar e mergulhar no universo tecnológico. “Eu estava lá com jovens de 19, 20, 21 anos. Então eu rejuvenesci do ponto de vista tecnológico”, lembra sorrindo.
Ao entrar no universo das startups, ela percebeu que o maior desafio está justamente na inovação constante. “Na startup a gente trabalha com o novo. É tentativa e erro. Quanto mais persistente você for, maior certeza do êxito você terá”, defende Lieda.
Permanecer ativa é sinônimo de saúde
Aos 63 anos, Lieda afirma que não pensa em desacelerar. “Acho que ainda tenho muito tempo útil em que eu posso contribuir com a minha experiência profissional de todo esse tempo. Então eu não pretendo parar”, diz. Além da startup, ela também ministra aulas e atua em consultorias voltadas à implantação da reforma tributária em empresas. Para ela, o trabalho continua sendo uma fonte de motivação. “Eu tenho umas paradas estratégicas, mas o que faz meu olho brilhar é o trabalho. Trabalho é vida.”
Ao refletir sobre sua trajetória, Lieda afirma que empreender após a aposentadoria tem sido uma forma de continuar contribuindo com a sociedade. “Eu estou aproveitando minha aposentadoria. Quando a gente produz, quando retorna para a sociedade, é a gente que aproveita”, relata.
A trajetória acadêmica de Lieda também reflete as mudanças na participação feminina em áreas tradicionalmente ocupadas por homens. Na primeira graduação, em Ciências Contábeis, ela lembra que havia apenas três mulheres em uma turma de 20 estudantes. Hoje, segundo ela, a presença feminina nas salas de aula é maioria.
Além de contadora, Lieda também possui formação em Engenharia de Produção e na área jurídica.
Mesmo com uma trajetória consolidada, ela continua investindo na própria formação. Atualmente, está matriculada em um curso de pós-graduação sobre aplicação prática da inteligência artificial nos negócios. “Voltei a ser aluna para entender melhor como a inteligência artificial pode ajudar o meu negócio”, conta.
Lieda buscou apoio no Sebrae/RN e afirma estar determinada a continuar empreendendo. Ela também incentiva outras mulheres a investirem em novos projetos e a não deixarem de aprender. “Não tenha medo de voltar aos bancos de estudo para se abrir para novos conhecimentos”, aconselha.
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