Dados da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana de Natal (STTU) apontam que os acidentes envolvendo ciclistas em Natal registraram um aumento de 46,2% em 2025, em comparação com o ano anterior. No período, três pessoas morreram em decorrência das ocorrências. Especialistas alertam para a necessidade de reforço nas políticas de segurança viária e de conscientização no trânsito.
Ao longo de 2025, foram contabilizados 37 acidentes com ciclistas, resultando em 37 vítimas feridas, três óbitos e um caso sem ferimentos. Apesar do crescimento no número de ocorrências, os dados indicam que o total de óbitos se mantém praticamente estável em relação a 2024.
As vias com maior registro de sinistros foram a BR-101, no sentido Norte, e a Avenida Doutor João Medeiros Filho, com três acidentes em cada trecho.
Conforme a STTU, a meta da gestão é expandir a malha em aproximadamente 110 km até o final do mandato, sendo cerca de 30 km previstos para este ano, com prioridade para a Zona Norte, contemplando conexões em corredores como Maranguape, Boa Sorte, Itapetinga e Guadalupe.
O presidente da Federação Norte-Rio-Grandense de Ciclismo (FNC), Guto Nascimento, avalia que, em Natal, houve avanço na infraestrutura cicloviária da cidade, mas ainda é insuficiente. “É fundamental adotar um conjunto de medidas integradas. Ampliar e qualificar a rede cicloviária, priorizando conexão entre bairros, continuidade dos trechos e sinalização adequada, além de manutenção permanente”, defende o gestor.
Natal possui mais de 110 km de infraestrutura cicloviária, entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. Em nota, a STTU afirmou que a rede ainda apresenta trechos fragmentados, o que compromete a continuidade dos percursos e a segurança dos deslocamentos de ponta a ponta. “O foco atual é consolidar uma malha mais contínua, conectada e funcional, fortalecendo a bicicleta como modal seguro e integrado ao sistema de mobilidade urbana”, informou a pasta.
Guto Nascimento revela ainda que é urgente fortalecer a educação para o trânsito e a mudança de cultura no dia a dia. “O ciclista é parte de um sistema de mobilidade e deve ser respeitado: garantir sua segurança não é apenas uma pauta de quem pedala, mas um compromisso coletivo com a vida e com a convivência responsável no espaço público”, destaca o presidente da FNC.
Segundo ele, é fundamental fortalecer as políticas de fiscalização voltadas à segurança viária, com ações contínuas contra condutas que colocam os ciclistas em risco, como o excesso de velocidade, a direção distraída e a realização de manobras perigosas.
A titular da STTU, Jódia Melo, destaca que a mobilidade segura é uma responsabilidade coletiva e que a secretaria já trabalha para diminuir o índice de acidentes. “Seguimos trabalhando com planejamento técnico e diálogo permanente com a sociedade e entidades afins para que a bicicleta ocupe, de forma definitiva, o seu espaço na mobilidade de Natal.”
Turma do Bem
No último dia 24 de fevereiro, completou-se um ano da morte do oftalmologista Araken Britto, atropelado por um caminhão no Bairro Tirol. Ele pedalava com um grupo de ciclistas no momento do acidente. O caso gerou grande comoção na cidade.
Após a morte do médico, o grupo de ciclistas Turma do Bem passou a intensificar a mobilização em defesa da segurança no trânsito. O grupo atribui o aumento no número de acidentes à maior adesão ao ciclismo nos últimos anos, somada à falta de infraestrutura adequada e à deficiência na educação no trânsito por parte dos motoristas.
“A infraestrutura da cidade é uma infraestrutura que não atende à segurança do pessoal. Em comparação com outras cidades do Nordeste, Natal fica atrás em ação efetiva para dar segurança aos ciclistas”, denuncia o ciclista da Turma do Bem, Armando Paiva.
Ele relata que o crescimento dos acidentes também está ligado ao aumento do uso da bicicleta como meio de transporte diário. “As pessoas, hoje, usam a bicicleta como meio de transporte para trabalhar e, como aumenta a quantidade, a estrutura também tem que aumentar”, relata.
Fator de risco
Para o especialista em transporte Rubens Ramos, os acidentes de trânsito são resultado de uma combinação de fatores. Segundo ele, situações como pontos cegos, proximidade entre veículos e ciclistas, problemas no pavimento e falhas de sinalização contribuem para as ocorrências. No entanto, destaca que a velocidade é o principal elemento que determina tanto a probabilidade quanto a gravidade dos acidentes.
“Em todos os casos, o que determina a probabilidade do acidente e suas consequências é a velocidade do trânsito”, revela Ramos. Ele explica que o risco é maior em vias onde os veículos circulam entre 80 km/h e 100 km/h, como rodovias, mesmo quando o ciclista está no acostamento, do que em ruas de bairro, onde a velocidade média é de cerca de 30 km/h.
A medida mais eficaz para reduzir os acidentes é a separação física entre os diferentes fluxos de trânsito, por meio da implantação de ciclovias isoladas das faixas destinadas aos carros, conforme o especialista. No entanto, ele ressalta que nem sempre essa alternativa é viável, dependendo das características e limitações de cada via. Como opção intermediária, o especialista cita as ciclofaixas.








