Ananda Miranda
Repórter
Eles praticamente nasceram dentro do barracão da escola de samba. Entre ensaios, tambores e fantasias, crianças e adolescentes aprendem desde cedo a rotina do samba, a disciplina necessária para se apresentar na avenida e o respeito à história da escola. Para muitos, essa é a forma de manter viva a tradição da família e da comunidade, enquanto conciliam estudos, amigos e o sonho de um dia brilhar nas avenidas.
Os primos Isabella Myrian de Oliveira e Derick Mardone, de apenas oito anos, aprenderam a sambar praticamente junto com os primeiros passos, crescendo entre ensaios na rotina das escolas de samba da família. Na Acadêmicos do Morro, eles atuam como porta-bandeira mirim e mestre-sala. “Eu gosto da música que meu tio faz e eu adoro sair na escola de samba”, revela Isabella.
A mãe de Isabella, Messiliana de Oliveira, diz que na família são tantas gerações que participam do Carnaval que ela mesma já perdeu as contas. “Quem não é envolvido diretamente é indiretamente nos bastidores”, relata.
Messiliana se lembra com carinho da primeira vez que viu a filha desfilar, aos 2 anos. Na época, ela era ritmista e tocava na bateria, ficando na última ala. Por isso, quem acompanhava a criança era a avó, que desfilava junto com a ala infantil. “Eu só via ela através de vídeo”, relembra. Este ano, pela primeira vez, ela acompanha a filha como porta-bandeira.
Para a família, ver as novas gerações se envolvendo com o Carnaval é motivo de orgulho. “Ver o interesse deles, o gosto deles pelo carnaval, pela cultura, que querendo ou não às vezes não é tão valorizada, é um sinal de grande orgulho”, afirmou Messiliana.
Segundo ela, o comprometimento com os ensaios, a responsabilidade nas funções e a vontade de fazer bonito na avenida mostram o quanto as crianças levam o samba a sério.
O incentivo para que a filha participasse surgiu naturalmente. Segundo ela, o gosto pelo mundo artístico acabou despertando o interesse da criança. “Ela, por me acompanhar desde pequenininha, vendo eu fazendo, tomou gosto. Foi mais partido dela”, explicou. O convite para ser porta-bandeira foi recebido com muita alegria. “Ela ficou mega feliz”, disse.
Isabella não nega a influência da mãe ao vê-la desfilar cheia de brilho. Para ela, acompanhar a rotina de Messiliana foi decisivo para despertar o interesse pelo samba. “Ela saía bem, ela saía bem bonita e aí eu fui sair também”, relata a menina.
O primo também foi influenciado pelo ambiente familiar. A mãe dele participava da escola com vários parentes e ele acabou se integrando. “A minha mãe disse assim, ó, vem cá, tu não quer ir? Bora!”, relatou Derick.
Na família, o samba é tradição. Segundo Messiliana, mais de 20 parentes participam direta ou indiretamente do Carnaval. “É uma coisa de família. Quem não ajuda diretamente no desfile ajuda indiretamente nos bastidores”, afirmou. Para ela, a expectativa é que esse legado continue. “Se tiver o mesmo interesse, vai ser passado de geração em geração e vai aumentando o orgulho”, assume.

Herdeiros do Carnaval
Durante a gravidez, Ana Paula Almeida, diretora artística da Batuque Ancestral, já desfilava nas avenidas do Carnaval de Natal. Desde cedo, o samba fez parte da rotina da família. A partir dos dois anos, o filho, Said Almeida, começou a desfilar e a acompanhar os passos da mãe na escola. Hoje, aos 12 anos, ele segue como batuqueiro, enquanto Ana Paula continua na dança.
“Ficar na escola é muito legal e fico feliz porque atualmente eu tô na bateria, na escola de samba. Eu tô com o caixa, que é malacacheta. É um ambiente que eu sempre gostei. Quero continuar assim”, disse o menino.
A rotina de ensaios exige dedicação, compromisso e trabalho em equipe, além de muita organização para conciliar os horários do colégio, já que ele estuda em tempo integral. O jovem aprende desde cedo a dividir o tempo entre os estudos e o samba, mantendo a responsabilidade dentro e fora da avenida.
O adolescente destacou a influência da família e que só participa graças ao apoio. “Minhas maiores inspirações são meu avô e minha avó”. Orgulhosa, Ana Paula diz que o Carnaval vai além da festa. “Pretendo passar para as próximas gerações da minha família porque é amor e amor não se explica”, destaca.
Assim como acontece na família de Ana Paula e Said, o samba também é herança e aprendizado diário em outros lares da comunidade.
Desde antes de aprenderem a andar, Adailton Souza, de 17 anos, e o irmão Arlanderson Souza, de 14, já ouviam o som do surdo, da caixa e do tamborim ecoar como trilha sonora da própria infância. Criados na sede da Balanço do Morro, os dois transformaram a convivência diária com o Carnaval em destino: hoje, são parte fundamental da bateria que embala os desfiles na avenida.
A liderança veio cedo, mas não por acaso: antes de comandar, ele aprendeu observando, errando, acertando e, principalmente, vivendo o samba desde pequeno. “Eu sou mestre há três anos e meu irmão se mantém como ritmista da bateria”, conta Adailton, com orgulho.
Por volta dos cinco anos, os dois já desfilavam nas alas, aprendendo, passo a passo, os caminhos da avenida. “A gente já cresceu envolvido. Começamos nas alas até chegar à bateria”, relembra.
A história da família se confunde com a da própria agremiação. Eles moravam no local onde a escola Balanço do Morro foi fundada. “A gente literalmente morou onde tudo começou. Quando nascemos, já éramos de dentro”, afirma Adailton.
Entre as memórias mais fortes estão os bastidores dos desfiles — longe dos holofotes, mas cheios de significado. Adailton lembra da correria da diretoria, dos carros alegóricos ajustados às pressas, dos presidentes sujos de tinta e graxa, dos diretores sem tempo sequer para trocar de roupa. “Aquilo marca. Mostra determinação, força de vontade e trabalho duro para entregar um bom desfile”, diz.
Gradualmente, o envolvimento virou herança. Hoje, avós, tios, primos e irmãos participam da escola, e metade da família integra a bateria.
A rotina é intensa e organizada. Os ensaios acontecem duas vezes por semana. Na segunda-feira, o foco é técnico, voltado para bossas e firulas. Na quarta, o treino acontece com samba, ajustando tempo, desenhos e encaixes ao enredo. Cada batida é pensada, treinada e repetida até alcançar a perfeição.
Fora da avenida, Adailton divide o tempo entre o trabalho com pintura automotiva e apresentações em grupos de pagode nos fins de semana, quando surgem oportunidades. “Acredito que eu queira aprender de tudo um pouco, mas um dos meus sonhos é ser do ramo da música, um professor, quem sabe”, disse o garoto.
Escolas ensinam sobre responsabilidade
Desde os 10 anos de idade, Victor Boaventura, de 16 anos, encontrou no Carnaval mais do que um espaço de diversão: um caminho de aprendizado, responsabilidade e pertencimento. Ele começou a frequentar a escola de samba da Águia Dourada por influência da tia, que participava da escola. Apaixonado pela dança, Victor aceitou e estreou como mestre-sala, função que exerce até hoje.
A rotina de preparação para o desfile é intensa e envolve toda a família. Os ensaios acontecem durante a semana e nos fins de semana, em locais organizados pela escola. Victor costuma treinar ao lado da irmã, Cecília Boaventura — que é porta-bandeira. “A gente fica ensaiando junto, passando ideias, conversando”, contou. Os encontros variam de acordo com os horários de cada um.
Cecília começou como passista, mas depois passou a atuar como porta-bandeira, formando durante alguns anos um casal com Victor na avenida. Atualmente, cada um segue com parceiros diferentes, mantendo a tradição familiar na escola.
Entrar ainda criança na escola de samba contribuiu diretamente para o amadurecimento. Segundo ele, no começo, a responsabilidade era menor, mas foi aumentando com o tempo. “Foi uma coisa que me pegou bastante no começo, porque, bom, eu era pequeno, então eu não tinha tanta responsabilidade quanto eu tenho agora. Então, isso acabou me ajudando até na minha vida pessoal mesmo, ter mais responsabilidade com horários”, afirmou. Hoje, ele procura sempre chegar no horário ou até antes, para não atrapalhar a dinâmica da equipe.
O sonho dentro do Carnaval também evoluiu ao longo dos anos. Se no início a participação era apenas por diversão, agora Victor planeja alcançar o cargo de oficial da escola. “Como eu só posso me tornar oficial a partir de 18 anos, eu vou me esforçar bastante para conseguir. É um sonho”, destaca.
O apoio da família sempre esteve presente. Nos primeiros anos, parentes acompanhavam Victor nos ensaios e desfiles, ajudando no transporte e na organização. Com o tempo, ele ganhou mais autonomia, mas ainda conta com a presença constante da tia e da irmã. “Eles sempre me apoiaram, nunca foram contra”, ressaltou.
Para o futuro, Victor espera que a relação com o samba continue atravessando gerações. Ele afirma que gostaria que os filhos também participassem da escola, caso tenham interesse. “Se gostarem como eu gosto, eu gostaria que eles entrassem”, disse.
Histórias como a de Victor ilustram a importância de renovar os quadros das escolas de samba e dos blocos carnavalescos. A entrada precoce em agremiações contribui para a formação artística.








