Felipe Salustino
Repórter
O aumento das notificações de pancreatite associadas ao uso indevido de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a emitir um alerta para ressaltar os riscos de tal prática. O receptor em questão inclui a dulaglutida, a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida. Especialistas ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE avaliam que a utilização desse tipo de medicamento é segura, desde que realizada sob orientação médica adequada.
Já de início, a gastroenterologista e hepatologista Auzelivia Rego alerta: o mais importante é não demonizar nem banalizar. “São medicamentos eficazes e seguros quando usados com orientação médica”, diz. Segundo a especialista, apesar dos riscos potenciais existirem, eles são considerados baixos quando essas medicações são usadas com indicação adequada e acompanhamento médico.
“A obesidade é uma doença crônica e séria, e medicamentos como a semaglutida (Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro) representam avanços importantes no tratamento dessa condição. O fundamental é que o uso seja individualizado, seguro e sobretudo supervisionado”, afirma a médica, que atua no Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol). A endocrinologista Marília Farache reforça que a primeira orientação é procurar um médico para o uso adequado.
Ela lembra que, desde o primeiro análogo de GLP-1, as chances de pancreatite aguda já constam em bula. “Então, o risco não é bem uma novidade, embora ele seja considerado raro. A Anvisa precisa agora investigar se realmente há uma associação direta entre o uso das canetas e a doença”, pontua Marília. Segundo a Anvisa, recentemente a autoridade reguladora do Reino Unido (MHRA) informou que registrou, entre 2007 e outubro de 2025, 1.296 notificações de pancreatite relacionadas aos usuários desses medicamentos, incluindo 19 óbitos.
No Brasil, de 2020 até 7 de dezembro de 2025, houve o registro de 145 notificações de suspeitas de eventos adversos e seis suspeitas de casos com desfecho de óbito. A Anvisa reforçou que esses medicamentos devem ser utilizados exclusivamente conforme as indicações aprovadas em bula e sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado. Segundo a Agência, o devido monitoramento médico é motivado justamente pelo risco de eventos adversos graves, como pancreatite aguda, que podem incluir formas necrotizantes e fatais.
“Apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula”, destacou a Anvisa. Segundo recomendação da Agência, os usuários desses medicamentos devem procurar atendimento médico imediato em caso de dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.
Evite medicamentos não aprovados
A gastroenterologista Auzelivia Rego alerta para o fato de que medicamentos não aprovados ou fiscalizados pela Anvisa oferecem riscos significativamente maiores de pancreatite, uma vez que não há qualquer garantia de qualidade, pureza, dose correta ou condições adequadas de armazenamento. “E, caso aconteça um efeito adverso, não há como rastrear lote, fabricante ou garantir responsabilidade sanitária. Portanto, o uso de produtos não regulados coloca a saúde de quem usa em risco, de forma imprevisível”, explica a especialista.

A gastroenterologista explica que as medicações do tipo não são moléculas simples de manipulação comum. Segundo ela, são peptídeos biotecnológicos complexos que exigem, portanto, um processo industrial altamente padronizado, controle rigoroso de pureza e cadeia de frio adequada. Marília Farache, endocrinologista com atuação na Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), unidade da Rede Ebserh, detalha que, além do uso indiscriminado, alguns fatores podem agravar os riscos de pancreatite associados ao uso das canetas emagrecedoras.
“Como são medicações bem potentes, que levam a perdas significativas – e quando se perde peso muito rapidamente, existe um risco maior de formação de cálculos da vesícula biliar –, então, as chances são potencializadas”, sublinha a endocrinologista. Para atenuar os riscos, ela ensina que o primordial é a indicação e o acompanhamento médico, mas frisa que, se o indivíduo já teve pancreatite de repetição, o uso das canetas é contraindicado.
De acordo com a especialista, a chance de pancreatite naturalmente existe a partir do uso desses medicamentos porque eles alteram a lipase e a amilase pancreáticas, que são enzimas produzidas pelo órgão para facilitar a digestão de lipídios, absorção de ácidos graxos (no caso da lipase) e a quebra de amido para transformá-lo em açúcar (no caso da amilase). Apesar do alerta, Marília Farache destaca que os casos ainda estão sob investigação. Auzelivia Rego, do Huol, analisa que, por enquanto, não dá para subestimar ou superestimar os riscos.
“O que precisa ser levado em conta é a segurança do paciente”, diz. A gastroenterologista aponta que a semaglutida e a tirzepatida, principais representantes das medicações popularmente conhecidas como canetas emagrecedoras, pertencem a uma classe de medicamentos que atuam em hormônios intestinais envolvidos no controle de apetite e da glicose. Desde os primeiros estudos com essa classe, há cerca de 20 anos, segundo ela, existe a preocupação com o possível aumento do risco de pancreatite, porque esses medicamentos estimulam receptores que também existem no pâncreas.
“No entanto, nos grandes estudos clínicos e nas análises feitas após a liberação desses medicamentos para uso (os chamados ‘estudos de vida real’), os casos de pancreatite foram raros. Quando ocorreram, a frequência foi baixa e, na maioria das análises, não houve aumento estatisticamente significativo em comparação com o placebo, ou seja, é possível que não tenha sido pelo remédio e sim algo concomitante. Foram avaliados mais de 100 mil pacientes nesses estudos”, descreve a médica.
Diante da situação, Auzelivia Rego esclarece que existe uma “associação observacional que justifica a vigilância [da Anvisa]” e que o alerta foi dado porque houve relatos de casos de pancreatite em pessoas que estavam em uso dessas medicações. “Mesmo que o risco de causalidade seja baixíssimo, por ser uma doença potencialmente grave, inclusive com risco de morte, as agências regulatórias monitoram os eventos com atenção”, falou.
O que é pancreatite
A pancreatite, conforme o nome sugere, é uma inflamação no pâncreas, um órgão que tem duas funções importantes: produzir hormônios como a insulina, que controla o açúcar no sangue, e produzir enzimas que ajudam na digestão dos alimentos. Quando o pâncreas está inflamado, essas enzimas são rompidas dentro do próprio órgão, causando autodigestão, provocando dor abdominal intensa, com chances de complicações que variam de leves a graves.
O comunicador Tacio Cavalcanti diz que faz questão de seguir à risca as recomendações de especialistas.
“Comecei o uso há cerca de sete meses, com acompanhamento de uma nutróloga e de um personal trainer. Desde então, já perdi 30 quilos.
Sigo constantemente as recomendações de tomar muita água e comer bastante proteína”, conta Cavalcanti. A influenciadora Lele Cioli, de 28 anos, começou a usar Mounjaro como parte do tratamento de obesidade que já envolveu, inclusive, uma cirurgia bariátrica. O uso veio por indicação de um endocrinologista.
Durante os meses de uso, a influenciadora foi acompanhada por uma equipe que, depois de um tempo, optou pela indicação do desmame da medicação. “Não tive receio nenhum de usar porque teve todo um aparato profissional. Inclusive, o uso só será retomado se a equipe entender que isso é necessário”, relatou a influenciadora.








