A absolvição do natalense Alexsandro Nascimento da Silva, de 28 anos, acusado de matar o ex-companheiro francês Serge Albert Pierre Yves Claude, foi fundamentada em falhas na investigação conduzida pela polícia portuguesa e na análise de provas técnicas que, segundo a defesa, foram ignoradas ao longo do processo.
Alexsandro foi absolvido pelo Tribunal do Júri, em Natal, na última sexta-feira (12), das acusações de homicídio qualificado por asfixia, ocultação de cadáver e furto qualificado. O crime teria ocorrido em 2019, em Lisboa, Portugal.
Segundo as investigações, o corpo da vítima foi encontrado enrolado em um cobertor na despensa da residência, após o proprietário do imóvel acionar o Corpo de Bombeiros, pois não conseguia contato com o francês para cobrar o aluguel. A data da morte foi considerada entre os dias 8 e 12 de junho.
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Único apontado como suspeito
De acordo com o advogado Rodrigo Galvão, a investigação realizada pela polícia portuguesa desconsiderou qualquer indício que não apontasse Alexsandro como autor do crime. Segundo ele, tudo o que apontava para o réu era tratado como prova, enquanto informações que poderiam indicar outras linhas de apuração foram descartadas.
A defesa também apontou contradições nos depoimentos considerados centrais pela principal testemunha de acusação, que apresentou declarações com inconsistências, e que foram ignoradas pela polícia.
“Desde o início, a investigação seguiu uma linha única, partindo da premissa de que Alexsandro era o autor do crime. Todos os elementos que não confirmavam essa tese foram desconsiderados, o que comprometeu a apuração e impediu que outras possibilidades fossem devidamente investigadas”, disse Rodrigo.
Digitais e objetos no apartamento
Entre os pontos levantados no julgamento, a defesa destacou a análise das impressões digitais encontradas no apartamento da vítima. Segundo Galvão, digitais atribuídas a Alexsandro foram localizadas em ambientes comuns da residência, como o banheiro, o que seria compatível com o fato de ele frequentar o local.
Por outro lado, impressões digitais encontradas no cobertor utilizado para envolver o corpo não pertenciam ao acusado e, ainda assim, não teriam sido aprofundadas pela investigação.
Quebra de sigilo telefônico e GPS
Um dos principais elementos apresentados no julgamento foi a análise da quebra de sigilo telefônico do acusado. De acordo com a defesa, os dados de localização indicaram que Alexsandro esteve no apartamento da vítima pela última vez na manhã do dia 8 de junho, e, de acordo com o histórico telefônico de Serge, ele teria realizado uma ligação no dia 8 pela noite, significando que ainda estava vivo.
De acordo com Galvão, os documentos referentes à localização estavam fragmentados em diferentes partes do processo e precisaram ser reorganizados pela defesa para reconstruir os deslocamentos do réu. A partir dessa análise, foi possível apontar horários e trajetos que afastariam a presença de Alexsandro no local no momento estimado do crime.
Comprovantes de compras de bebidas alcóolicas
A defesa também destacou a existência de comprovantes de compras na tarde de 8 de junho, período estimado para a morte da vítima. As notas indicavam a compra de bebidas alcoólicas, apesar de o acusado, segundo depoimentos, não consumir álcool. Ainda assim, os comprovantes não passaram por perícia para identificação de impressões digitais.
Câmeras de segurança e ex-namorado
Entre as quase quatro mil páginas do processo, Rodrigo encontrou a última mensagem enviada pela vítima a um amigo, na qual Serge informava que um ex-namorado, identificado como Eric, estava em sua residência. Apesar disso, a polícia não investigou essa pista.
Imagens de câmeras de segurança do condomínio também não foram analisadas. A justificativa apresentada foi de que o sistema armazenava as gravações por apenas 30 dias e que esse prazo já havia sido ultrapassado no período em que Alexsandro estava no Brasil, o que acabou descartando outras hipóteses que não apontassem para o brasileiro.
Alegação de preconceito e xenofobia
Para a defesa, a condução do caso também teria sido influenciada por preconceito contra o acusado por sua condição de estrangeiro em Portugal. Segundo Galvão, a interpretação dos fatos foi sistematicamente desfavorável a Alexsandro, enquanto outras possibilidades, envolvendo europeus amigos de Serge, não foram investigadas com o mesmo rigor.
“O Tribunal do Júri entendeu que não havia provas suficientes para sustentar nenhuma das acusações”, afirmou o advogado.
Absolvido de todas as imputações, Alexsandro tenta agora reconstruir a vida após anos respondendo ao processo. A decisão do júri encerra o caso sem qualquer registro criminal contra ele.







