Com o trauma de ver o assassinato do irmão, Clesia de Medeiros, de 52 anos, que já tinha depressão, se viu em um momento de crise com pensamentos suicidas. Após muitas buscas de médicos para auxiliá-la nesse período, em 2019 foi indicado o tratamento no Centro de Tratamento de Alterações de Humor Resistentes à Terapêutica (Cetrahte), no Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (HUOL/UFRN). “O pessoal me levava para médicos e mais médicos, e eu não ficava boa. Não conhecia ninguém, não sabia quem eu era, fiquei completamente fora de mim. Um pessoal indicou que aqui (no Cetrahte), que tinha um tratamento muito bom com o Doutor Emerson. Quando conseguiram a autorização, comecei meu tratamento aqui e voltei ao normal”, declara Clesia. Para ser atendido no Cetrahte, é necessário que o paciente seja residente de Natal e tenha encaminhamento de um médico psiquiatra.
O tratamento ofertado no Centro do HUOL é para pacientes com depressão que encontraram dificuldade em mais de uma tentativa com apenas uso de remédios. Por exemplo, quando um primeiro medicamento não funciona, é necessária a troca, o reforço da terapia ou até o aumento da dose. Em caso de falha nessa segunda tentativa, usa-se o termo “depressão resistente a tratamento”, sendo necessário, além de uma terceira tentativa com medicamento, adotar outro tratamento para o paciente, como explica o médico psiquiatra do Huol/UFRN-Ebserh, Emerson Arcoverde.
“As pessoas com depressão resistente a tratamento, elas tendem a não responder bem a um terceiro tratamento. Ela tem uma taxa de 10 a 15% de resposta. Aí sim é preciso lançar mão de outros tratamentos junto com a terceira medicação, porque a taxa de resposta é muito baixa. Se, por exemplo, você utiliza cetamina, a taxa vai para 40 a 50%, e se utiliza eletroconvulsoterapia vai até para 80% de taxa de resposta”, pontua o médico.
Clesia é uma das pacientes encaminhadas para o Cetrahte com um tratamento com uso de medicamento e recebe outro tratamento ofertado pelo Centro. Um dos tratamentos é a aplicação da cetamina, uma medicação anestésica, injetável, com oito sessões de duração entre uma hora e uma hora e trinta, duas vezes por semana. “A gente faz abaixo da dose da anestesia, subcutânea no paciente, duas vezes por semana durante quatro semanas. Completou as oito sessões e ele respondeu (ao tratamento), o paciente tem mais algumas sessões semanais de seguimento para solidificar essa melhora e ele seguir com o tratamento dele, porque isso não substitui o tratamento que ele estava fazendo, isso potencializa o tratamento que ele estava fazendo”, explica o médico.
O segundo tratamento ofertado no Cetrahte é a eletroconvulsoterapia (ECT), anteriormente conhecida como eletrochoque. O tratamento com ECT exige de uma a duas sessões por semana, durante 10 a 12 semanas, e é realizado com auxílio de máquinas modernas que utilizam cargas leves que proporcionam uma convulsão no paciente anestesiado. “E a pessoa sob efeito da anestesia, completamente adormecida e com bloqueio muscular, tem uma convulsão no nível central do cérebro, que faz com que ela volte a melhorar e volte a fazer efeito um remédio que não estava fazendo efeito”, pontua o médico.
O Cetrahte da HUOL foi desenvolvido para suprir uma necessidade que não era oferecida pelo SUS. A disponibilização dos dois tratamentos é no Hospital Universitário Onofre Lopes – Huol/UFRN, localizado no bairro Petrópolis, em Natal.
Como o único local que atende no Rio Grande do Norte de forma gratuita, o Centro atende em torno de 10 pacientes de ECT e de 10 a 15 pacientes de cetamina por semana. Seria necessária uma ampliação dos locais que disponibilizem o tratamento de forma gratuita. “O ideal seria a gente ampliar esses locais, a gente ter mais locais não só no interior, mas também na própria Natal, que oferecessem esse tipo de tratamento”, reforça o médico.








