Um legado de solidariedade e esperança. Nesta terça-feira (12), o Armazém da Caridade, uma das maiores instituições filantrópicas do Rio Grande do Norte, completa três décadas de atuação. Localizado na zona Oeste de Natal, no bairro Nossa Senhora de Nazaré, o local doa cerca de 200 toneladas de alimento ao ano. Para marcar a data, a sede do Armazém da Caridade recebe a partir das 9h representantes de 40 instituições previamente agendadas, que serão beneficiadas com mil cestas básicas.
A celebração inclui um café da manhã com bolo, biscoitos e confraternização entre voluntários, convidados e comunidade. O evento também celebra mais um ano de vida de Manoel Lopes da Silva, fundador da instituição. “Eu diria até que é um dos anos mais felizes da minha vida”, disse Manoel, que aos 91 anos segue ativo na rotina do Armazém com a mesma disposição que o moveu desde o início.
Português da cidade de Póvoa de Varzim, Manoel chegou ao Brasil aos 20 anos de idade, após ser criado por um sargento do Exército Brasileiro, depois de perder o pai, que ficou paralítico, numa congestão cerebral e terminou os dias pedindo esmola. “Veio a intuição maior, que eu acredito que foi mandada pelo meu pai: criar o Armazém da Caridade”, afirma Manoel, que acredita na doutrina espírita.
De acordo com ele, a inspiração para sua missão de criar o armazém veio cedo: “Fora da caridade não há salvação”, repete ao lembrar o lema central do espiritismo, que é estampado por uma grande faixa na parede do estabelecimento.
Ao decidir fundar o Armazém em 1995, Manoel procurou a Prefeitura de Natal, que doou um terreno de 1.200 m² para o projeto. “Eu na ocasião não sabia bem o que ia fazer com um terreno tão grande. Sozinho, sem companhia de ninguém.” A inauguração aconteceu em 12 de agosto de 1995.
“A maior dificuldade era fazer com que as pessoas acreditassem que era uma instituição séria, sem interesse em dinheiro ou política. Política é política, caridade é caridade. Nunca mexemos com isso”, confessa o fundador.
Antes mesmo da fundação do Armazém da Caridade, Manoel Lopes já sentia o chamado para ajudar. Ele relembra iniciativas simples, porém marcantes, que antecederam o projeto. “Uns tempos nós levamos sopa para os presos da Delegacia de Roubos e Furtos. Outra ocasião nós levamos maçãs para os internos no Hospital Onofre Lopes”, conta. Essas ações foram, segundo ele, como pequenos ensaios para o que viria a ser sua missão maior: criar o Armazém.
Uma das ações mais marcantes do Armazém da Caridade foi a campanha S.O.S. RN, realizada durante uma severa seca no interior do estado. A iniciativa mobilizou uma grande estrutura logística, com o Armazém percorrendo as principais cidades do RN e distribuindo, semanalmente, mil cestas básicas, roupas e calçados às comunidades mais afetadas.
Outro projeto que Manoel Lopes guarda com especial carinho é a Ceia de Natal destinada a famílias em situação de vulnerabilidade. Ao invés de reunir todos em uma única mesa, ele teve uma ideia simples, mas simbólica: cada família teria a sua própria mesa. A tradição seguiu por 15 anos. “Eu pensei: cada família vai ter a sua mesa. E fizemos. Foi um sucesso. Teve música de Roberto Carlos, fogos, e no final todos cantavam em pé ‘Jesus Cristo, eu estou aqui’”, conta.
Hoje, o Armazém conta com uma equipe enxuta, formada por voluntários. Entre eles, Maria do Carmo Barros, conhecida como “Kaká”, e Sônia Santiago, que organizam os donativos durante toda a semana. Para Kaká, “o Armazém da Caridade significa um posto de socorro, um ponto onde a solidariedade está sempre em ação e um compromisso com o futuro e com a assistência aos que mais precisam.”
Em 2025, são 40 instituições cadastradas e cerca de 200 toneladas de alimentos distribuídas por ano em todo o estado.








