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Pais e filhos mantêm viva a arte e a tradição no mundo do circo; veja vídeo

Felipe Salustino
Repórter

Eles têm uma trajetória bem sucedida, são ovacionados por milhares de pessoas e costumam arrancar inúmeros sorrisos do público com graça e leveza em espetáculos diários. Talvez por isso, o ofício que os palhaços Bisteca – do circo Bisteca e Bochechinha – e Chuvisco – do circo Kroner – abraçaram tenha captado de imediato a admiração dos filhos, os quais, do mesmo modo, optaram por acolher a vida circense. E não por acaso, as habilidades de Geja (filho de Bisteca) para as acrobacias no tecido e a desenvoltura de Lavínia (filha de Chuvisco) durante as apresentações musicais em cada espetáculo são motivo de orgulho para os papais.

Gerardo Muniz, o palhaço Bisteca, começou na vida circense aos 16 anos, em uma jornada que segue encantando o público há mais de três décadas. O primeiro contato com a arte ocorreu aos 12 anos, quando ele começou a fazer Teatro. Nascido em Alto Santo, no Sertão do Ceará, Bisteca tem uma longa relação de amor com o Rio Grande do Norte, especialmente, com a capital, já que aqui ele recebeu o título de cidadão natalense e passa a maior parte do tempo. Com participação em diversos festivais – alguns deles lhe renderam troféus – o palhaço é pai de Geja Muniz, de 24 anos, e Ana Cecília, de 11.

Prestes a se formar em Audiovisual pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Geja diz que encontrou no pai a motivação para estar no circo. A maestria com a qual ele desenvolve cada movimento no tecido arranca aplausos fervorosos do público ao mesmo tempo em que denunciam o profundo amor que o artista, a exemplo do pai, tem pelo picadeiro. As semelhanças entre os dois, no entanto, vão além da vida artística. “Somos parecidos em tudo, inclusive, na teimosia. Além disso, gostamos de fazer sempre o melhor”, afirma Bisteca, que está com 47 anos.

Geja concorda, mas brinca, enquanto arranca uma gargalhada sincera do pai. “Em termos de idade, há uma diferença muito grande entre a gente. Fora isso, nossas referências de vida são muito iguais”, afirma o rapaz, nascido em Fortaleza (CE), mas criado no RN.

A relação entre Nilton Gatica, de 37 anos, e a filha Lavínia Gatica, de 17, também é marcada por semelhanças. Nilton é o palhaço Chuvisco, do circo Kroner, que está em Natal para uma temporada. Paranaense de Foz do Iguaçu, ele é pai de três meninas, dentre elas, Lavínia, que nasceu em Garulhos (SP), carregando na bagagem desde sempre a paixão pela rotina de espetáculos Brasil afora.

“Meu pai sempre apoiou a nós três. Um dia, ele me abraçou dizendo que queria para mim aquilo que eu escolhesse para a vida. Já quis ser veterinária e arquiteta, mas, sendo filha dele, não poderia ser diferente: me decidi pelo circo”, relata a estudante. “Fora da vida artística, ela adora arrumar a casa, assim como eu. De todas as filhas, acho Lavínia a mais parecida comigo, com a diferença de que ela é bem mais turrona do que eu”, diverte-se Chuvisco.

Inspiração


Lavínia Gatica é apaixonada pelo circo a ponto de sequer saber responder com exatidão o que mais ela gosta nesse ambiente. “Acho que tudo aqui me encanta”, frisa. A relação com o universo circense vai muito além do fato de ser o berço dela. Tem a ver, segundo a adolescente mesmo menciona, com o fascínio – que ela acompanha de perto – do pai pelo picadeiro. “Ele é minha inspiração e meu mundo, o grande responsável por eu me apegar tanto à magia do circo”, discorre.

Lavínia Gatica é filha de Nilton. Ele é o palhaço Chuvisco, do circo Kroner, enquanto que ela faz apresentações musicais| Foto: Adriano Abreu

Chuvisco retribui de forma modesta, embora reconheça o papel que desempenha na vida da filha. “Tenho consciência de que sou uma base, não necessariamente uma inspiração. Acho que o pai tem que ser aquela pessoa da qual os filhos têm orgulho, tanto como profissional quanto como ser humano. E eu sempre tento ser para ela uma referência de boa pessoa”, declara.

Na relação entre Bisteca e Geja, a inspiração que o filho tem pelo pai resultou em uma parceria sem precedentes, muita em função de o próprio Bisteca ter se espelhado nos pais para seguir na vida artística. “Embora não houvesse nenhum artista na família, minha mãe era muito simpática, gostava de tirar brincadeira o tempo todo. E meu pai, sempre risonho, adorava tocar violão. Para mim, essa união entre riso e alegria resultou em um casamento perfeito, que é o circo”, diz o palhaço.

Da profissão do pai, Geja traz a paixão pelas cores. Ele conta que iniciou na vida artística se montando como drag queen, uma forma de misturar cores, caricaturas, vibração, glitter e paetê, inspirado nas experiências de Bisteca no picadeiro. “Meu pai me inspira em cada movimento. Às vezes estou montando uma performance ou ensaiando para uma apresentação e me pego com os mesmos tiques e manias dele. E de vez em quando percebo que isso não se resume apenas aos palcos, mas na vida também”, relata.

Bisteca se diz orgulhoso do filho, atribuindo o sucesso da vida artística de Geja à dedicação que o rapaz adotou desde muito cedo. “Tenho um orgulho gigante de ter um filho artista preocupado e perfeccionista com o trabalho da forma como ele é. Geja faz hoje o número mais aplaudido e mais perigoso do circo. Ele precisa simular uma queda lá de cima, enrolado no tecido e isso deixa a plateia eufórica. O aplauso é inevitável e eu, realmente, fico extremamente orgulhoso”, reforça o palhaço.

“Quando a apresentação dele começa, fico atrás do palco ouvindo a vibração do público e penso: caramba, meu filho cresceu e virou um artista”, acrescenta Bisteca. Antes das apresentações com tecido, Geja já trabalhou na produção do circo e também na sonoplastia. Bisteca relembra com carinho que o filho, ainda criança, gostava de imitar os números que assistia. “Ele sempre teve uma veia artística muito pulsante. Quando era pequeno e assistia os nossos shows, ficava imitando depois, mas eu sempre deixei que ele ficasse muito à vontade até crescer e buscar o próprio espaço”, falou Bisteca.

De pai para filho: dia especial também no circo

Estar ao lado dos filhos em mais um Dia dos Pais, comemorado neste domingo (10), é um privilégio que Bisteca e Chuvisco fazem questão de agradecer. Os dois reconhecem que educar para a vida é bem mais difícil do que atraí-los ao circo, mas o fato de estar em sintonia em ambos os campos é motivo para celebrar, afinal, essa mesma sintonia é fruto de um elemento imprescindível nas relação humanas: o amor incondicional. Bisteca, por exemplo, lembra o que sentiu quando soube da gravidez da esposa.

“Nunca consegui compreender o tamanho do meu amor por Geja. Aprendi a amá-lo antes mesmo de conhecê-lo, quando ele ainda estava na barriga da mãe. Uma vez, conversei com minha esposa e questionei: como a gente consegue amar tanto uma pessoa? É algo realmente inexplicável, que vai crescendo junto com o desenvolvimento deles [dos filhos]. Geja é um menino inteligente, carinhoso e respeitador. É muito fácil ser pai dele”, homenageia Bisteca. O rapaz busca responder à altura aos elogios.

“Ele é tudo para mim – meu maior fã e maior crítico também. Ele une cafunés e puxões de orelha. Tenho muita sorte de tê-lo como o pai tão participativo que ele é”, fala o artista. Em mensagem especial para o Dia dos Pais, Geja ressalta: “Sou seu maior admirador. Você é o grande amor que eu levo para a vida”, diz. Chuvisco, do circo Kroner, também se reconhece grato pela relação com as filhas. “Elas são meu chão e o ar que eu respiro. Tudo que eu vivo e faço, é por elas”, declara. Tímida, Lavínia devolve: “Não sou muito boa com palavras, mas nesse Dia dos Pais quero agradecer por tudo que você faz por mim. Te amo muito”.

Chuvisco nasceu e se criou no circo. Aos cinco anos, entrou no palco pela primeira vez, construindo um carreira como palhaço há 32 anos. Com tanta vivência, ele não estranha a escolha de Lavínia por esse ambiente, mas destaca que a felicidade das meninas é o que mais importa. O pai diz não impor nenhuma escolha para as filhas.

“Minha relação com Lavínia é maravilhosa, apesar de eu ser um pai chato. Não imponho nada para as minhas filhas. Quero que elas fiquem à vontade para fazer as próprias descobertas”, fala o palhaço Chuvisco, com convicção.

Bisteca, por sua vez, tem um trabalho mais voltado ao público infantil. Em setembro será iniciada uma temporada de apresentações por cidades do entorno de Natal. Ao todo 12 pessoas trabalham com ele. Com o filho já encaminhado no circo, ele comenta que é difícil imaginar Geja em outra área futuramente. Sua ideia é que o filho possa tomar conta do circo. “Daqui a 15 anos, vejo ele trabalhando muito no circo para que eu possa me aposentar”, disse sorridente, com a costumeira facilidade de fazer de graça.

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