Jessyanne Bezerra
Repórter
Um possível caso de intoxicação alimentar, que levou médicas à UTI após o consumo de peixe, acendeu o alerta para um risco pouco conhecido na costa brasileira: a ciguatera. A doença é provocada por toxinas naturais acumuladas em peixes de recife e tem sido considerada a principal suspeita neste episódio. Em entrevista ao Ligado nas Cidades, da Jovem Pan News Natal (93,5 FM), Arimar Filho, presidente do Sindpesca/RN, afirmou que ainda não é possível determinar a causa da intoxicação que levou médicas à UTI, mas destacou que os sintomas são compatíveis com a ciguatera, uma toxina natural e rara no Brasil e mais comum no Caribe.
O presidente do Sindpesca/RN pediu cautela diante da repercussão e reforçou a necessidade de aguardar o resultado de exames laboratoriais. Ele ressaltou que o diagnóstico definitivo depende de testes laboratoriais e lembrou da importância de consumir peixes provenientes de estabelecimentos com inspeção federal. Arimar também apontou a possibilidade de histamina como causa, caso tenha havido falhas na cadeia de frio após a pesca.
“Ainda é cedo para afirmarmos a causa exata. Os sintomas podem indicar ciguatera, que é uma toxina natural presente em algas consumidas por peixes. No entanto, outras hipóteses, como a histamina, também precisam ser consideradas”, afirmou Arimar.
A ciguatera é uma intoxicação alimentar causada por toxinas produzidas por algas do tipo dinoflagelado, especialmente em ambientes tropicais. Essas toxinas se acumulam ao longo da cadeia alimentar: primeiro nos peixes herbívoros que consomem as algas e depois nos peixes carnívoros que os devoram — e, por fim, nos humanos.
“Se for realmente ciguatera, é uma fatalidade. É algo que não pode ser detectado antes do consumo e que ocorre de forma natural no ambiente marinho”, explicou Arimar.
Ele também ressaltou que este pode ser o primeiro caso do tipo registrado no Rio Grande do Norte, embora já haja relatos semelhantes em Fernando de Noronha desde 2022.
A espécie de peixe envolvida no caso é o dourado. Embora não seja um peixe de recife — o tipo mais associado à toxina —, Arimar explica que, por ser carnívoro, o dourado pode sim bioacumular a toxina, ao se alimentar de peixes contaminados.
“É por isso que reforçamos a importância de saber a origem do pescado. Estabelecimentos com inspeção federal fazem análises regulares e garantem rastreabilidade. No caso da ciguatera, mesmo isso não evita o problema, mas reduz outros riscos”, pontuou o presidente do Sindpesca.
Arimar também sugere que outra hipótese considerada é a intoxicação por histamina, que ocorre quando há falha na refrigeração do pescado, geralmente durante o transporte ou manuseio. Essa condição também pode provocar sintomas gastrointestinais e costuma estar associada à quebra da cadeia do frio.
O que é Ciguatera?
Trata-se de uma intoxicação alimentar causada pela ingestão de peixes contaminados com ciguatoxinas, toxinas produzidas por algas que crescem em recifes de corais. Essas toxinas não têm cheiro, sabor e não são destruídas pelo cozimento ou congelamento. Entre os sintomas estão dores abdominais, vômitos, diarreia, sensação de formigamento, inversão térmica (frio parece quente e vice-versa) e problemas cardíacos. O diagnóstico é clínico e não há tratamento específico, sendo essencial o atendimento médico imediato.
Os sintomas variam de náuseas e diarreia a distúrbios neurológicos como formigamento, inversão térmica (frio parece quente e vice-versa), fraqueza muscular e até problemas cardíacos. Segundo manuais sanitários, não existe teste específico para confirmar a doença em humanos, e o diagnóstico depende do histórico alimentar do paciente. Embora seja mais comum no Caribe, autoridades brasileiras alertam que há risco na costa brasileira, e casos podem estar subnotificados
O que diz a SESAP
Segundo nota técnica emitida pela Secretaria Estadual de Saúde (SESAP), a doença é rara no Brasil, mas já foi registrada em Fernando de Noronha a partir de 2022. A SESAP alerta que não existe tratamento específico para a condição, reforçando a importância da notificação e da análise laboratorial dos casos suspeitos.
“Não há tratamento específico para a ciguatera. O manejo é feito com hidratação e cuidados sintomáticos. Também não há teste laboratorial em humanos — o diagnóstico é clínico, com base nos sintomas e na história alimentar”, afirma o documento da SESAP.
Assista a íntegra da entrevista:







